PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

terça-feira, 25 de julho de 2017

UM DEUS DE ALIANÇA


Protagonistas de uma vivência da história em que somos confrontados com a nossa natureza densa, paradoxalmente ou não, a mesma torna-se mote para a transcendência na procura incessante do súbtil, do silêncio de uma voz que, poderosa, apela ao lado belo de nós mesmos. Assim se define o nosso viver como uma revelação constante, imparável, rumo a um outro mundo dentro deste mundo.

Com isso nos identificamos com o Invisível que, mediante os nossos desconfortos de crentes cheios de dúvidas, nos faz reflectir sobre Deus como aquele Ser cujo mundo não pode ser outro senão o nosso; nos eleva à condição do humano como o outro ser que, de tão feito de pó, é simultaneamente tão ar, tão força, tão presença de Deus lembrando que se o filho tráz a marca do pai, logo não seria possível ao humano não transportar a marca do seu Criador.

As crises da fé não são o descreditar na existência de Deus, antes as nossas zangas, à semelhança de Job que, caído em desgraça, revolta-se contra Deus perante Deus - talvez se assim não fosse estivéssemos a negar a existência do próprio humano. Mas não, estamos em crise aquando do espanto da nossa semelhança com Ele; o desconcerto da Sua presença num mundo tão ignóbil; a existência de uma Aliança com seres como nós. Na nossa finitude, poderíamos afirmar que Deus se enganou ao aliar-se ao humano, que provavelmente teve pressa, que podia ter aguardado que nos purificássemos, previamente, ou pelo menos sermos um pouco bonzinhos.

Se assim fosse, qual a natureza desses hipotéticos escolhidos? Certamente não seriam tão humanos como nós, e Deus seria o criador para alguns, não para todos; manifestar-se-ia a escolhidos tão subtis que não caberiam nos nossos padrões de humanidade. As organizações cristãs têm-se dedicado a criar dessas superioridades como galináceos, esquecendo-se de que uma igreja não é um aviário, nem os seus dirigentes ou pregadores criadores de gente com pedigree.

Ora, a Aliança é uma revelação desconcertante. Não pretende diferenciar o humano a partir de qualidades que lhe nâo são próprias; não é uma escolha pela superioridade, o que iria abafar o ideal de humildade e o simples que é ter fé. Pelo contrário, é dentro da insansatez, do comezinho, do banal que Deus se manifesta, porque eles são a nossa natureza, a nossa identidade e porque sem eles não precisaríamos da fé. A Aliança confere sentido, outro sentido, talvez, à nossa existência, reforça a nossa humanidade. Dizemos outro porque não sabemos se o nosso sentido é mesmo nosso, construção existencial da nossa experiência, e ao qual se sobrepõe outro, o divino; ou então se identificam, apenas com momentos peculiares, acções diferenciadas no palco vivencial humano. De qualquer forma, há uma presença que nos aceita como somos, ou então, salvífica, pretende libertar-nos de nós mesmos, em parceria connosco. É que nós somos o outro lado da Aliança

Em Camões, humanos e deuses confundem-se, trocam de naturezas. A vontade de vencer dos humanos não conhece limites, e os deuses invejam-lhes a natureza por isso. Possuídos por forças sobrenaturais, não mais que humanas e sem limites exaltadas, enfrentam as forças do Mal com mais coragem e destrezado do que o fazem as forças do Bem. É que o sobrenatural camoniano significa o que escapa à natureza dos deuses, não o que escapa à natureza humana; é o que está fora do comum dos mortais, pertença única daqueles que da morte se libertam.

Mas também é uma demonstração de até onde o poder do sonho conduz o sonhador. Assim, porque os deuses não sonham, senão não eram deuses, espantam-se com a heroicidade dos humanos desmesurada, movida pelo engenho e arte da fé, que também é sonhadora. A ocidental praia lusitana revelou-se-lhes, assim, mostrando ao mundo, mediante o seu exemplo, que a vontade de vencer o medo do desconhecido se sobrepõe a todas as vontades. Descobrem os deuses, mesmo os do Bem, que o humano possui uma coragem, uma força de querer capaz de enfrentar até os feros mares e os seus mostrengos, traça objectivos que persegue com todas a suas forças, nem que para isso faça perigar a sua própria vida, sacrificando-a no altar da coragem sem fim.

Mas o Deus da Aliança dispensa corajosos para enfrentaar os oceanos. Navegantes da fé, somos a Sua obra promissora, aqueles que não precisam de trocar de identidade com Ele para mostrarem quem verdadeiraamente são. Apenas mudamos de nome sempre que um passo em frente damos na luta contra os nossos monstros internos.

Somos aliados de Deus na medida em que, com a nossa finitude e apesar dela, somos capazes de enfrentar todas as vicissitudes. E, tal como em Camões, o Mal é vencido; só que, para este, ele continua lá, rebaixado, na Aliança será para sempre aniquilado, porque o Bem não se compadece com aqueles que o rejeitam.

Como nos contos de fadas, o Bem não é uma transformação do Mal. O Bem é bem por ele mesmo, é de outra natureza. A fada má, a bruxa má, enfim, serão definitivamente aniquiladas pelas suas congéneres do Bem; o herói sai vitorioso na medida em que lutou sempre, humildemente, sendo recompensado com a felicidade sem fim.

É isso a Aliança, a certeza da felicidade sem fim, neste mundo quando o amarmos como a um filho; ou no outro quando ambos se fundirem no mesmo ideal de paz, apesar das suas naturais diferenças. Crentes em Deus, não nos sentimos projectados para o desconhecido. Há quem viva a loucura de uma vida terrena à procura de benefícios no outro mundo, traçado à sua imagem e semaelhança mesquinhas. São os insensatos que nem conseguem perceber que não é com ideologias que Deus estabelece a Sua Aliança, mas com quem está apaixonado pela vida. 

As nossas crises, que tão banalizadas são, as nossas angústias, o desespero, o sofrimento, numa palavra, são desafios para a fé, são materiais para a construção de um outro tempo, uma realidade que há de vir. Mas há tanto por viver hoje, o dia ainda não acabou, ainda temos tantas coisas a realizar, aqui e agora. A noção de Deus que transportamos é a que espelhamos na história que vamos construindo num presente contínuo.

A Aliança é a certeza de que há um Ser que vive connosco a tempo inteiro. Deus não é uma presença em part-time. Quanto a nós, basta dizer: “Senhor, habita na minha casa, hoje e sempre!” Ou, como Francisco de Assis: “Senhor, faz de mim um instrumento da Tua paz…” ou, como diz o salmista: “ Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; apaga as minhas transgresssões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito recto.” (Sl 51:1; 10) *.

As expressões “Kardecismo” e/ou “kardecista” não devem ser desestimadas (Jorge Hessen)





Jorge Hessen

É evidente que o termo espírita só é aquele preconizado por Kardec, sem hibridezes. Entretanto, as palavras “kardecista" e/ou "kardecismo" seriam de uso censuráveis? Talvez seja ineficaz a utilização dessas palavras, no entanto jamais serão impróprias. Além disso, entendemos que há algumas ponderações plausíveis a serem expostas com relação ao assunto.

Primeiramente recorramos ao Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa [1]. Nele encontraremos as definições: kardecismo - Doutrina religiosa de Allan Kardec; kardecista - pertencente ou relativo a Allan Kardec ou ao kardecismo - adepto do kardecismo. A Enciclopédia Universal define o seguinte: kardecismo - Doutrina de Allan Kardec, espiritismo - kardecista - aquele que adota as doutrinas de Allan Kardec - Relativo a kardecismo [2]. Estamos aqui fazendo referência a duas consagradíssimas fontes do saber.

Dizem que existe uma guimba de preconceitos a substituição dos termos espírita e Espiritismo pelos termos "kardecista" e "kardecismo", visando que suas crenças não sejam confundidas com aquelas que, para tais, são "inferiores", portanto não querem ser identificados como feiticeiros ou macumbeiros. Mas vale aqui uma ponderação. Em quase todos os lugares que se pratica o mediunismo, alcunha-se de “espírita”.

Vejamos, existem instituições nomeadas como "centro ‘espírita’ caboclo beltrano", "tenda ‘espírita’ pai sicrano", "cabana ‘espírita’ vovô fulano", "centro ‘espírita’ tenda fraterna", "centro ‘espírita’ de umbanda cobra coral", "centro ‘espírita’ pai Joaquim” etc. Em tais instituições não há qualquer orientação espírita, portanto precisariam substituir o nome ‘espírita’ por espiritualista.

Apesar das apropriações indébitas do termo ‘espírita’, conquanto sem cumplicidade, pois cada coisa deve estar em seu devido lugar. Os espíritas, respeitamos todas as seitas, cultos, religiões, valorizamos todos os esforços para a prática do bem, trabalhamos pela confraternização entre todos os homens, independentemente de raça, cor, nacionalidade, crença ou nível cultural e social, e reconhecemos que, segundo Kardec, "o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza".[3]

Se o Espiritismo rejeita quaisquer cultos externos, é óbvio que não pode ser considerado espírita quem exercita cultos em “terreiros”, quem é adepto de magia “branca” ou “negra”, quem adota idolatria, conquanto se consideram espiritualistas. Com as lições de Allan Kardec, cuja literatura não poderá deixar de ser fonte básica do Espiritismo, devemos asseverar que o conceito ou o nome de espírita não podem ser aplicados aos seguidores de qualquer seita ou prática espiritualista, porém tão somente aos estudiosos e praticantes que abarcaram a Doutrina dos Espíritos e por lógica já não se vinculam mais ao ritualismo nem aos preceitos e dogmas que estreitam a inteligência, petrificam a fé e fragmentam o bom senso.

É por essas e outras que o emblemático sincretismo religioso brasileiro tem remetido as pessoas a confundirem Espiritismo com ocultismo, esoterismo, teosofia, orientalismo, umbandismo, xamanismo, exorcismo, exoterismo, ubaldismo, ramatisismo e demais mistismos iguais ao roustanguismo febiano e outros análogos. Em face disso é perfeitamente compreensível a defesa de alguns confrades para o uso do célebre "sou kardecista" para se harmonizarem de forma racional às circunstâncias cabíveis.

Kardecismo? Anos atrás, jamais se admitiria essa hipótese, pois Espiritismo só existe um. No entanto, e embora consciente de que o Espiritismo não foi obra de um homem, mas dos Espíritos Superiores, e que o mestre lionês, por isso mesmo, foi apenas o instrumento de que a espiritualidade maior se serviu para transmitir novas diretrizes de amor e paz à Humanidade, nada obsta que cheguemos ao fato concreto de que o sufixo "ismo", em seu pseudônimo, seja disseminado para designar o movimento religioso (Espiritismo) por ele codificado. Ou seja, o termo Kardecismo distinguiria a doutrina por si só.

Como exemplo dessa ordem, podemos citar o Darwinismo, Platonismo, Socratismo, Luteralismo, Calvinismo etc. E quem nos garante que os métodos desses grandes vultos da História tenham sido particularíssimos, isto é, sem a inspiração de Espíritos Superiores? É óbvio que foram inspirados. Portanto, nada mais justo, oportuno e conveniente que estudemos essa possibilidade, "também", pois os espíritos superiores, por serem superiores, representam a permanente tranquilidade interna ante as atitudes que promovam e dignifiquem o legítimo pensamento espírita.

Urge que se faça a distinção, pois não podemos admitir que a Doutrina Espírita caminhe com luzes na essência e obscurantismo na sua difusão e aplicação prática. É um fato real e digno de nossa atenção. Naturalmente a nossa presunção no texto não é modificar coisa alguma, mesmo porque não detemos poder para tanto, porém reafirmamos (sem o fantasma da culpa) que o uso das expressões Kardecismo ou Kardecista não constitui um atentado contra a Doutrina dos Espíritos, por isso mesmo não deve ser motivo de censuras, análises severas ou indignação, pois esses vocábulos estão perfeita e intrinsecamente associados ao termo Espiritismo.

 Referências bibliográficas:
[1]            Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, SP: Ed Positivo, 2010
[2]            Enciclopédia Universal.  São Paulo:  Editora Pedagógica Brasileira LTDA, 1969

[3]            KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII, Item 3, RJ: Ed. FEB, 2001

“Andar com fé eu vou...” (Jorge Hessen)




Jorge Hessen

“Andá com fé eu vou. Que a fé não costuma faiá”, diz o refrão da música do cantor Gilberto Gil. Narra a carta aos Hebreus que a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Cremos que fé é a certeza da aquisição daquilo que se tem como finalidade.

Sem a fé racional, nas situações de crise, seja de ordem econômica ou agravamento da insegurança pública, as relações sociais, pessoais e familiares se deterioram. Diante das incertezas, é comum que o medo domine as mentes de uns ou de outros. Pensar que não se conseguirá enfrentar uma doença, lidar com os erros, a perda do emprego ou dos bens materiais amplia o temor de muitos. Surge o pânico nalguns ante a chegada da velhice, da solidão, da perda de um amor e assim por diante. Caminha o tímido sob as ansiedade e desconfortos psicológicos.

Os irrequietos, os estressados visitam, cinco vezes mais, médicos que uma pessoa normal. O sintoma crônico da ausência de fé e do medo estão gerando enigmas físicos e emocionais, tais como infarto do miocárdio, úlcera e insônia. Para nós, estudiosos do Espiritismo, sabemos que a solução para o enfrentamento dos embates da vida e do medo é o exercício da fé coerente, apontando-nos o rumo do equilíbrio emocional. É igualmente a certeza da reencarnação e a convicção da imortalidade que nos reforça o alimento da fé diante dos desafios do viver.

Fundamentalmente, a fé deve apoiar-se na razão sempre. Até porque a fé não é um dom fornecido por Deus para alguém em especial, nem deve ser imposta de fora para dentro. A fé é o produto da conquista pessoal na busca da compreensão do caminho correto, das verdades que permeiam a essência das próprias vidas, por meio do conhecimento, da experiência, das reflexões pessoais e pelo esforço que se faz para o auto amor e por entender que o amor é a causa da vida, e a vida é o efeito desse amor.

Na mensagem de Jesus, aprendemos a lição da fé (transportadora de montanhas) da coragem, do otimismo, do bom senso capazes de renovar nossas tendências, impedindo que o medo, a depressão e a angústia se apossem de nosso cotidiano. Até porque “a fé não costuma faiá”.


“Andar com fé eu vou...” (Jorge Hessen)



Jorge Hessen

“Andá com fé eu vou. Que a fé não costuma faiá”, diz o refrão da música do cantor Gilberto Gil. Narra a carta aos Hebreus que a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Cremos que fé é a certeza da aquisição daquilo que se tem como finalidade.

Sem a fé racional, nas situações de crise, seja de ordem econômica ou agravamento da insegurança pública, as relações sociais, pessoais e familiares se deterioram. Diante das incertezas, é comum que o medo domine as mentes de uns ou de outros. Pensar que não se conseguirá enfrentar uma doença, lidar com os erros, a perda do emprego ou dos bens materiais amplia o temor de muitos. Surge o pânico nalguns ante a chegada da velhice, da solidão, da perda de um amor e assim por diante. Caminha o tímido sob as ansiedade e desconfortos psicológicos.

Os irrequietos, os estressados visitam, cinco vezes mais, médicos que uma pessoa normal. O sintoma crônico da ausência de fé e do medo estão gerando enigmas físicos e emocionais, tais como infarto do miocárdio, úlcera e insônia. Para nós, estudiosos do Espiritismo, sabemos que a solução para o enfrentamento dos embates da vida e do medo é o exercício da fé coerente, apontando-nos o rumo do equilíbrio emocional. É igualmente a certeza da reencarnação e a convicção da imortalidade que nos reforça o alimento da fé diante dos desafios do viver.

Fundamentalmente, a fé deve apoiar-se na razão sempre. Até porque a fé não é um dom fornecido por Deus para alguém em especial, nem deve ser imposta de fora para dentro. A fé é o produto da conquista pessoal na busca da compreensão do caminho correto, das verdades que permeiam a essência das próprias vidas, por meio do conhecimento, da experiência, das reflexões pessoais e pelo esforço que se faz para o auto amor e por entender que o amor é a causa da vida, e a vida é o efeito desse amor.

Na mensagem de Jesus, aprendemos a lição da fé (transportadora de montanhas) da coragem, do otimismo, do bom senso capazes de renovar nossas tendências, impedindo que o medo, a depressão e a angústia se apossem de nosso cotidiano. Até porque “a fé não costuma faiá”.