PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

domingo, 15 de janeiro de 2017

Chacotas inconsequentes - Jorge Hessen

Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília.DF


Paulo escreveu aos Gálatas: “Não vos enganeis; Deus não se deixa zombar; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará”. [1] Alguns humoristas impiedosos, armados de repertórios controvertidos, costumam debochar das desgraças alheias (bêbados, homossexuais, analfabetos, jagunços, idosos, aleijados etc.), a fim de bancarem os seus estúpidos shows. 

Há dois mil anos Jesus foi ridicularizado. Notemos: Nisso os soldados do governador levaram Jesus ao pretório, e reuniram em torno dele toda a coorte. E, despindo-o, vestiram-lhe um manto escarlate; e tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e na mão direita uma cana, e ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus! E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e davam-lhe com ela na cabeça. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto, puseram-lhe as suas vestes, e levaram-no para ser crucificado. [2]

Ridicularizar, segundo o dicionarista, é aquele que tira "onda" zomba; que vive caçoando, causando riso com a intenção de debochar de algo ou de alguém; fazendo chacota com palavras, expondo-a ao ridículo. Que trata alguém com escárnio. Que exprime, demonstra e utiliza sarcasmo. Procurar tornar ridículo por meio de gestos, atitudes ou palavras irônicas. 

Os motivos podem ser muitos, dentre eles: Por diferenças raciais, doenças deformantes, forma de ser (personalidade), características regionais. Na verdade muitas pessoas são ridicularizadas pelo fato de não estarem enquadradas no atual perfil psicossocial, que parece eleger as pessoas "normais" e as "estranhas" que são alvos de zombarias cruéis.

Cientistas da Universidade de Leiden (Holanda) concluíram que rir dos problemas dos outros – um hábito muito comum entre os seres humanos – é sinal de baixa autoestima. Isso significa que, cada vez que alguém faz chacota ao ver alguma pessoa em desventura está mostrando que tem sérios problemas de auto aceitação.

Os estudos foram liderados pelo professor Wilco W van Djik e analisaram 70 pessoas. A grande maioria delas confessou ficar ditosa quando sabe que outra pessoa cometeu alguns deslizes ou se machucou. Van Djik afirmou para a revista LiveScience que “pessoas com menor autoestima se sentem melhor quando observam a desgraça alheia”. E esse sentimento (de gostar de ver os outros sofrendo) tem um nome: Schadenfreude. [3]

Raciocinando, dialogando ou trabalhando, “a força de nossas ideias, palavras e atos alcança, de momento, um potencial tantas vezes maior quantas sejam as pessoas encarnadas ou não que concordem conosco, potencial esse que tende a aumentar indefinidamente, impondo-nos, de retorno, as consequências de nossas próprias iniciativas”. [4]

Nos anos 1940, Chico começava a ser conhecido nacionalmente, e também era processado pela família do jornalista Humberto de Campos , que exigia na justiça o pagamento dos direitos autorais pela venda dos livros psicografados. Nessa mesma época, desembarcou em Pedro Leopoldo, David Nasser[5] e Jean Manzon, respectivamente, repórter e fotógrafo da revista O Cruzeiro, a revista de maior circulação no Brasil nessa época. O objetivo era entrevistar e achincalhar Chico Xavier.

A dupla expôs ao extremo ridículo a vida de Chico, justamente no momento mais crítico de sua vida, faltavam apenas alguns dias para que o juiz proferisse a sentença no caso Humberto de Campos. Com o título de “Chico Xavier, detetive do além” e dez páginas, a reportagem foi publicada na revista no dia 12 de agosto de 1944. Em meio a elogios, David aproveitava também para colocar em contradição os dons mediúnicos de Chico, sua ingenuidade em alguns momentos e sua esperteza em outros. 

Chico ficou indignado ao ler a reportagem. Ao ver sua vida e sua imagem (dentro de uma banheira) sendo manipulada daquela maneira, teve a certeza de que seria condenado. Chico chorava desesperadamente, não acreditava que havia sido enganado, e se perguntava porque Emmanuel não o alertou, se assim tivesse feito toda aquela humilhação não estaria acontecendo. 

Em meio à crise de choro Emmanuel surgiu no quarto e perguntou:

- Por que você chora?

- Por quê? É muita humilhação, uma vergonha, um vexame.

E Emmanuel respondeu:

- Chico você tem que agradecer. Jesus foi para a cruz, você foi só para “O Cruzeiro”. [6]

Toda a brecha de sombra em nossa personalidade retrata a sombra maior. Qual o pequenino foco infeccioso que, abandonado a si mesmo, pode converter-se dentro de algumas horas no bolo pestífero de imensas proporções, o deboche, a zombaria, “a maledicência pode precipitar-nos no vício, tanto quanto a cólera sistemática nos arrasta, muita vez, aos labirintos da loucura ou às trevas do crime”. [7]

Em suma, se zombarem de nós, sigamos o sábio conselho de Emmanuel - façamos do limão uma limonada e prossigamos em paz.




Referências bibliográficas:

[1]Gálatas 6:7

[2] Mateus, 27: 27-31

[3] A palavra deriva do alemão Schaden “dano, prejuízo” e Freude “alegria, prazer”.é um empréstimo linguístico da língua alemã também usado em outras línguas do Ocidente para designar o sentimento de alegria ou satisfação perante o dano ou infortúnio de um terceiro.

[4] Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, cap. 8, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1977

[5] Na década de 1970, David Nasser, em uma reportagem publicada no jornal carioca O Dia, se mostrou arrependido ao definir Chico Xavier como “o maior remorso da minha vida”.

[6] http://www.acaminhodaluz.net.br/v2/momentos-com-chico-xavier/103-chico-na-revista-o-cruzeiro.html

[7] Idem

CONGRESSOS. A FACE ESQUERDA



Luiz Carlos Formiga

Se alguém te ferir na face direita, oferece-lhe a outra.

Jesus liberou a legítima defesa, mas não a vingança. Orientou-nos a vencer o amor próprio, diante do interesse contrariado.
Há os que acreditam que os congressos não contribuem para o desenvolvimento da Doutrina Espírita. No atual movimento espírita qualquer assunto vira congresso. São dezenas a cada ano, muito bem estruturados econômica e turisticamente, enquanto a miséria cresce do lado de fora. Não conheço uma única tese que tenha merecido atenção mais duradoura dos espíritas de maior ou de menor discernimento. (1)
As críticas gerais se prendem aos hotéis de luxo; a programações com temas banais e a suspeita de bom retorno financeiro, apenas para os organizadores. Fala-se também em “fogueira de vaidades”.
Qualquer congresso apresenta pontos positivos e negativos.
O espírito Emmanuel lembra que não convém concentrar em organizações mutáveis do plano carnal todas as nossas esperanças e aspirações. A Ciência que nos atende às reclamações, nos minutos que passam, não é a mesma que nos servia, nas horas que se foram, e a do futuro será muito diversa daquela que nos auxilia no presente. Xavier, F. C., livro Fonte Viva. Emmanuel. FEB. Cap. 148.
Um exemplo do que foi dito acima pode ser encontrado nos dias de hoje, entre os profissionais de saúde na Europa, que estão refletindo sobre uma doença que acomete principalmente crianças, até os 05 anos. (2).
Em 2001 relatamos um caso da mesma doença numa advogada, adulta e vacinada.  Falhamos no diagnóstico clínico. Somente após a identificação bacteriana, o tratamento específico foi iniciado, obtendo-se boa resposta clínica. Escrevemos um artigo sobre o fato e enviamos carta a uma revista técnica alertando para a vacinação de adultos. (3)
Em congressos, discutimos resultados inusitados. Este foi o caso do isolamento de amostra diferente a partir de uma endocardite. A menina faleceu, embora fosse ministrada antitoxina e penicilina. (4)
Quando são lançadas dúvidas em relação aos nossos resultados de pesquisa, sentimos constrangimento, que aumentará se a nossa “legítima defesa” não convencer. Precisamos estar abertos à crítica, aprender a respeitar opinião contrária, honorificar as qualidades do adversário e verificar com quem está a razão. Congressos oferecem bons treinamentos. Já vi muitos saírem arrasados, quando não há delicadeza.
Quando num congresso, no exterior, a equipe apresentou a diferença encontrada no agente etiológico isolado no Brasil, uma pesquisadora questionou o diagnóstico laboratorial. Era a única opinião divergente, mas deixou um “espinho na carne”.
De volta ao Rio de Janeiro, a equipe ampliou os experimentos, como era natural. Ouvi de um deles: “estamos certos”. Acabara de extrair o “espinho”. A crítica, aparentemente negativa foi um ponto positivo. O laboratório carioca acabara de ganhar créditos, diante dos pares no exterior. (5)
Positivo foi um relato feito no Congresso Espírita de 1900. O indivíduo magnetizado no mais alto grau referiu-se à sua vida no Plano Espiritual e relatou a sua morte na última encarnação. Continuamente estimulado, chegou até quatro encarnações. A mais antiga fora uma existência inteiramente selvagem. A cada existência, as feições  mudava de expressão. Para ser restituído a seu estado habitual, foi gradualmente reconduzido até a atual encarnação e despertado em seguida.
Num congresso espírita, a discussão sobre a regressão de memória de Luciano dos Anjos (Camille Desmoulins) seria ponto positivo, até para o Prof. Dr. Ian Stevenson.
Também não temos dúvidas que, num congresso de diálogo franco e aberto, relatos como os dos doutores P. C. Fructuoso (6) e J. C. de Sá Roriz (7) seriam positivos, apesar da resistência da “Ética dos Semelhantes”. Geralmente, se apresentam como justificativa para a negatividade, o argumento que a pesquisa não foi desenvolvida numa instituição espírita, com médiuns e pesquisadores espíritas.
Comecei a participar de congressos na década de 1960. (8)
Hoje já não temos a mesma resistência, diante dos “pontos negativos”.
Num congresso espírita, devemos pensar no que ocorre, ao mesmo tempo, no plano espiritual. A presença de médiuns com credibilidade é fundamental. Como verificar se o relato é confiável? Confesso que sou admirador de Yvonne Pereira.
Vejamos o que nos diz o espírito Yvonne, através da mensagem psicográfica recebida por Marta A. de Moura, na F.E.B., em 22 de abril de 2010, no encerramento do Terceiro Congresso Espírita Brasileiro. (9)
Yvonne, espírito, supera expectativas ao relatar a localização, no plano espiritual, de uma comunidade de suicidas vivendo em situação precária.  Diz que neste local, incrustada em espaço de difícil acesso, existia uma escola, cujos dirigentes se especializaram em indução ao suicídio.
Um planejamento foi feito. Depois da visita de um mensageiro de elevada região, os professores da escola aceitaram o convite para participar do encerramento do Terceiro Congresso Espírita.
No encerramento a luz se fez pura e cristalina, jorrando do Alto. O problema foi solucionado, quando os espíritos equivocados observaram que os congressistas encarnados e desencarnados cantavam uma música em prol da paz. Ver a mensagem completa em 9.
Médiuns devem ter credibilidade. Chico Xavier preveniu-se contra aproveitadores. Deixou um código de verificação, para depois de sua morte. Mesmo assim alguns se aventuraram. Hoje, são muitos os livros derramados nas prateleiras do movimento. Necessitam de análise crítica. Sobrou para o Prof. Dr. José Passini! Alguém competente precisa fazer o trabalho heroico e pesado. (10)
No meu caso, pesquisei um “detector de mentiras”, mas para micróbios enganadores. Divulgamos os resultados numa revista de grande circulação, encontrada em banca de jornal, mas que tem origem na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. (11)
Voltemos aos dias de hoje e aos problemas causados pelo mundo invisível dos micróbios.  Em 10 de março de 2016, uma criança foi internada num hospital universitário da Antuérpia, na Bélgica, com dor de garganta e pseudomembrana. O diagnóstico médico presuntivo foi difteria, o "anjo estrangulador das crianças".
A menina de 03 anos, família da Chechênia, não estava vacinada e o soro antidiftérico não estava disponível na Bélgica.
O Centro de Referência só confirmou o diagnóstico clínico depois de cinco dias.
Em 16 de março a antitoxina foi enviada, depois do pedido de ajuda ao Centro Europeu de Prevenção e Controle das Doenças (ECDC) em Estocolmo. Com um drone (13, 14) chegaria mais rápido.
Tarde demais! A menina morreu no dia seguinte.
Em 2015, uma criança em Espanha morreu em circunstâncias semelhantes, e as taxas de vacinação em declínio, em alguns países, estão trazendo a expectativa do surgimento de mais casos. Enquanto isso, a antitoxina, produzida em cavalos, é escassa no mundo inteiro, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) a inclua em uma lista de “medicamentos essenciais”.
Após a vacinação em massa houve acentuada redução do número de doentes, o que levou à diminuição da fabricação do soro antidiftérico. Hoje o mercado é muito pequeno para tornar a produção rentável. Isso ocorre também nos Estados Unidos.
A Bulgária é o único produtor europeu, mas não há estoque que possa compartilhar. Para aumentar a produção se pensa em produzir o medicamento em cultura de células, o que inclusive eliminaria um efeito colateral, a “doença do soro”, mas quem patrocinaria esse tipo de projeto? Que empresa se interessaria?
Essas duas crianças que morreram na Europa, nos últimos dois anos, estimularam a busca de novas fontes de produção de antitoxina. Ainda hoje, se usam cavalos “como fábricas vivas”. Essas crianças poderiam ter sido salvas se tivessem obtido a tempo o soro neutralizador da exotoxina bacteriana. Para isso também pode contribuir um diagnóstico laboratorial mais rápido. (2) Principalmente quando estamos diante de um caso “atípico” e de uma amostra diferente, que pode fazer pensar em diagnóstico laboratorial microbiológico errado.
Vamos permanecer vigilantes. Recentemente tivemos um surto no Brasil (Maranhão), onde duas crianças imunizadas morreram. (12)  Imprescindível cultivar a fé e a esperança. Encontraremos soluções.
Espíritos inteligentes e mais felizes estão reencarnando em maior número, (13) para impulsionar nossa evolução, no inicio deste terceiro milênio. (14)

Referências

3.  Diphtheria in a vaccinated adult in RJ. RJ., Brazil. Brazilian Journal of Microbiology 2001; 32: 236239.
4.  AL Mattos-Guaraldi , LCD Formiga. Bacteriological properties of a sucrose fermenting Corynebacterium diphtheriae strain isolated from a case of endocarditis. Current Microbiology 1998; 37: 156158.
5.  Hirata Junior R, Pacheco LG, Soares SC, Santos LS, Moreira LO, Sabbadini PS, Santos CS, Miyoshi A, Azevedo VA, Mattos-Guaraldi AL. Similarity of rpoB gene sequences of sucrose-fermenting and non-fermenting Corynebacterium diphtheriae strains. Antonie van Leeuwenhoek, 99: 733-737, 2011.  http://link.springer.com/article/10.1007/s10482-010-9519-0
11. Formiga, L.C.D. Um detector de mentiras para micróbios. Ciência Hoje, 2 (8): 14, 1983.