PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

domingo, 18 de setembro de 2016

Velho Chico

Luiz Carlos Formiga

O resultado de necropsia foi asfixia mecânica por afogamento. Morreu dia 15 de setembro de 2016, aos 54 anos o ator protagonista da novela “Velho Chico”, Domingos Montagner.
O psiquiatra Augusto Jorge Cury diz que a vida física desaparece, se descaracteriza, mas a vida psicológica clama pela continuidade da existência.  A morte da consciência humana é inaceitável. A mente humana acha inconcebível a ruptura do pulsar da vida e insuportável a  inexistência da consciência. O pensamento de Jesus referente ao fim da existência humana tinha uma ousadia e complexidade impressionantes. Ele discursava sobre a imortalidade com uma segurança incrível. (1)
Lembremos que depois do discurso Ele passou, após a crucificação, a desequilibrar a incredulidade através de aulas práticas.
Diz ainda, o psiquiatra, que a maioria dos seres humanos nunca procurou compreender algumas implicações psicológicas e filosóficas da morte, que a necessidade de uma busca mística, espiritual, não é sinal de fraqueza intelectual, de fragilidade da inteligência humana. Na realidade expressa um desejo vital de continuidade do espetáculo da vida, sendo enfim um sinal de grandeza intelectual.
Este autor lembra o ateu declarado, pensador brasileiro, Darcy Ribeiro que em momentos antes de sua morte pediu aos seus íntimos que lhes dessem um pouco de fé. Isso não significou um sinal de fraqueza, pelo contrário. Esse momento refletia a necessidade universal e incontida de continuidade do espetáculo da vida.
O desejo de eternidade, de transcender o caos da morte, é inerente ao ser humano, não é fruto de uma cultura. Mesmo uma pessoa que pensa ou comete atos de suicídio não tem consciência da morte como fim da vida, à semelhança do que ocorre no início do período da sua infância. Ela não quer matar a vida, mas destruir a dor emocional, a angústia, o desespero que abate suas emoções.(2)
O desejo de superação da morte é irrefreável. Mas, como entender o pós-morte?  Aqui, a ciência biomédica se cala, pois pode fazer muito por um espírito, no corpo, mas não pode fazer absolutamente nada depois da morte. Jesus, por ser espírito superior, tinha um estilo de vida que estava além do limite de tempo e espaço.  Poucos foram aqueles puderam se aproximar, mesmo que modestamente, deste nível do existir. Como poderia Pilatos compreender o que Jesus argumentava durante sua oitiva.
Como pensavam os intelectuais do tempo de Jesus?
Fariseus, Saduceus, Samaritanos e Essênios acreditavam em Deus, mas discordavam em relação à prática religiosa.
Cury lembra que o homem possui uma necessidade intrínseca de procurar por Deus, de criar religiões e de produzir sistemas filosóficos metafísicos. Isto surge por necessidade de superar a morte e explicar a si mesmo o mundo, o passado, o futuro, os mistérios da existência.
Jesus proclamava que sua vida estava além dos limites do tempo e do espaço, mas a nossa ciência trabalha dentro dos intervalos do tempo. Como estudar fenômenos que estão além desses limites.
Como Pilatos, um romano, politeísta, poderia entender alguém adiante do seu tempo?
Jesus não pressionava ninguém, não impunha suas ideias, era contra o autoritarismo e apenas fazia convites, procurando abrir as janelas da inteligência do próximo.
Não compreendíamos e ainda hoje perguntamos qual a natureza de Jesus?
No século XIX Allan Kardec se debruça sobre esta questão.  Diz-nos no livro A Gênese:
Pelos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade confia somente a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios. Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas unicamente um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.
Como homem, Jesus tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível
Dizem que de tão poderoso fazia milagres. Kardec, no mesmo livro, cap XV, item 63, diz que o maior milagre que Ele realizou, o que verdadeiramente atesta a sua superioridade, foi a revolução que seus ensinos produziram no mundo, malgrado a exiguidade dos seus meios de ação.
Imaginemos os poderosos que morriam de medo de serem destituídos dos seus “tronos” terrenos. Quanto mais Jesus crescia diante do povo, mais aumentava o desejo de eliminá-lo.
Tudo aconteceu!
Jesus foi traído, preso e levado às autoridades judaicas. Mas, o Sinédrio tinha poderes limitados e por esse motivo Jesus foi entregue ao Procurador Militar da Judéia – Pôncios Pilatos, então governador. Hoje estaríamos reivindicando o direito ao contraditório. O devido processo legal e a ampla defesa. Sem esquecer os direitos humanos e os recursos aos supremos tribunais.
Naqueles dias, só Pilatos poderia proferir a sentença. Pena de morte.
 No entanto, Pilatos não via no Mestre nenhuma culpa. Seria aquele homem um revolucionário subversivo?  O que fazer? Como se resguardar do julgamento da história e principalmente de seus superiores imediatos? Resolveu então arrolar uma testemunha e ainda assim de sua inteira confiança.
Conta-nos Emmanuel, em Há Dois Mil Anos que o governador havia sido advertido, pela sua esposa Claudia, que não se envolvesse na morte de Jesus. Então ele manda chamar Públio Lentulus, o senador romano e lhe pede orientação sobre o perfil de Jesus. O senador lhe diz que o Mestre não era um revolucionário e que nunca ninguém o vira falar contra os poderes constituídos em Roma.
Os judeus insistiam, o povo clamava. Pilatos então resolve partir para o interrogatório e convoca Jesus. Leva-O para o interior do Pretório.
Tu és o Reino dos Judeus?
Existe uma frase de Jesus que surpreende. Ele pergunta de volta a Pilatos: Falas assim por ti mesmo ou os outros te disseram isso de mim?
Pilatos reage: como?Por acaso sou Judeu? Eles te entregaram a mim. Que fizeste?
Jesus ignora a pergunta e responde:  O meu Reino não é deste mundo; se o meu Reino fosse deste mundo, certo que os meus ministros haviam de pelejar para que eu não fosse entregue aos judeus; mas por agora o meu Reino não é daqui.
 Disse-lhe então Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, que eu sou rei. Eu não nasci nem vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (João, cap. XVIII, 33-37)
Pilatos insiste e pergunta de novo: O que é a verdade?
Jesus nada responde.
Diante daquele homem incrivelmente livre, embora “algemado”, altivo e sem nenhum traço de revolta ou de angustia, O Juiz, Pilatos, recua. Sabia-O inocente. Sai com Ele e diz a todos: não encontro nele dolo ou culpa.  
  Mas, o povo ensandecido grita. O Governador oferece o indulto, mas os poderosos o amedrontam. Por fim, Pilatos lava as mãos. O resto todos nós sabemos.
O meu Reino não é deste mundo.
No Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 2, lemos que por estas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que ele apresenta, em todas as circunstâncias, como o fim a que se destina a humanidade, e como devendo ser o objeto das principais preocupações do  homem sobre a terra. Todas as suas máximas se referem a esse grande princípio. Sem a vida futura a maior parte dos seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. É por isso que os que não creem na vida futura, pensando que ele apenas falava da vida presente, não os compreendem ou os acham pueris.
Em síntese, a vida futura é o delineamento essencial de todo o ensinamento de Jesus. Sua trajetória revela para a humanidade a certeza da vida espiritual aquela que aguarda a todos. O Reino que Ele nos trouxe deve ser erguido no Templo da Alma, na consciência do homem de Bem.
Por isso, embora tristes, com o prematuro desencarne do nosso ator no “Velho Chico”, estamos também resignados diante dos desígnios de Deus. Confiantes de que sua família estará amparada por todos que lhe reconhecem a condição de “Ator do Bem” e que ele hoje renasce para a vida espiritual, feliz por ter deixado uma boa resposta à pergunta que pode incomodar: “se você não existisse, que falta faria?” “Qual é a tua obra?”
Muitos séculos depois de Jesus oferecer seu testemunho de imortalidade, hoje temos a posse, com o advento da Doutrina Espírita, da chave que abre as portas para entendermos a resposta de Jesus ao Governador dos Militares da Judéia.
Hoje podemos responder com relativa tranquilidade a questões: Quem sou? Por que sofro? Qual o objetivo da minha vida? Para onde vou após a morte do meu corpo no “Velho Chico”?
Por isso disse Jesus: se disserem a vós o Reino de Deus está aqui ou está ali, não acrediteis. Ele está “dentro” de vós.
O Reino é conquista íntima, particular. O Reino de Jesus, ainda não é aqui.
Na sua despedida Jesus nos deixou um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei!
Domingos Montagner, o ator de “Velho Chico”, viveu na época, em que o nosso Chico ofereceu evidências sugestivas da imortalidade da alma, psicografando cartas de missivistas vindos do além para conforto dos amores, que permaneceram na Terra em extenuante dor de saudade.
Velho Chico! Medalha de ouro! (3)
Como foram abençoadas as cartas que você psicografou (4).
Por isso, por mais que eu sofra, mesmo que eu chore, obrigado Senhor.
Obrigado, Senhor pela esperança.
Obrigado, Senhor (5).

Referências
(1) Cury, A.J. Análise da Inteligência do Cristo. O Mestre dos Mestres. Editora Academia de Inteligência, 1999. São Paulo. 232 p.