PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

quarta-feira, 8 de junho de 2016

NÃO TEM SOLUÇÃO

Luiz Carlos Formiga

Não podia acontecer. O que vou fazer? Na tese a pergunta pode ser o mais importante. Nem sempre os caminhos percorridos oferecem resultados ditos positivos. Resultados negativos, na maioria das vezes, não são valorizados e socializados num  periódico científico. No entanto os resultados foram analisados e ofereceram pistas na direção da solução procurada. Muitas perguntas foram feitas pelo pesquisador, diante da frustração acadêmica.
Na televisão brasileira havia um humorista que exclamava: “ perguntar não ofende ! ”
Isso me lembra “bancas de defesa de tese”, das quais participei.
Em casa, eu ia lendo tese e formulando perguntas. As selecionadas, em razão do tempo, eram colocadas para o aluno responder na hora.
O critério de seleção das perguntas era o de me sentir incompetente na resposta. Quando o aluno brilhantemente respondia eu ficava muito feliz. Eu aprendia um pouco mais. Quando ele se “embananava” eu ficava feliz também, por ter oferecido uma contribuição para a linha de pesquisa dele. Por isso, acho também que perguntar não ofende.
Uma professora me pediu para incentivar alunos. Era uma turma de mestrado em Microbiologia Clínica. O objetivo era a reflexão em torno do comportamento ético-profissional.
Elaborando o plano de ensino pensei na estratégia. Foi um desastre, como governos recentes. Nunca mais fui convidado. Já estou acostumado. Isso acontece frequentemente após palestras no movimento espírita. As pessoas querem o café quentinho, mas não querem moer o grão.
A estratégia utilizada foi inspirada, embora de forma “rudimentar”, por Jung, que invocava a técnica socrática durante o processo terapêutico. Mas, na Faculdade de Ciências Médicas, eu não estava diante de pacientes, mas de profissionais comprometidos com o bom resultado dos exames na Medicina Laboratorial.
Após o aparente insucesso pedagógico, para não perder o material do conteúdo, tão duramente pensado, resolvi enviar um texto ao Boletim da Sociedade Brasileira de Microbiologia. Aí, o resultado foi amplamente satisfatório, pois foi publicado. Talvez não tenha sido por mérito. O presidente da Sociedade era meu colega de Departamento e havia sido meu aluno, anos atrás. Como não houve repercussão creio que tenho uma forte resistência frustração. Seria resiliência?
As perguntas formuladas no texto, colocadas abaixo, são de fácil solução?
Você é favorável ao aborto no caso de anencéfalos? E numa gravidez após o estupro?
Devemos distinguir os campos da ética e da religião? A religião é a expressão das convicções da fé de um grupo humano restrito? A ética é mais abrangente? A ética avalia os comportamentos do ser humano enquanto ser humano, independente de qualquer convicção religiosa ou política? A ética é de ordem qualitativa? A base da legislação para todos os cidadãos é a ética? Estado é apenas o centro legislador para todos os cidadãos?
O aborto situa-se no campo ético que é competência do Estado?
O estupro é uma grande injustiça, por ser uma violação física e moral da dignidade da pessoa?
Se um feto é apenas uma pessoa em potencial, mas ainda não é uma pessoa, podemos recomendar o aborto?
Um adulto sem potencial, paciente terminal, não é mais uma pessoa? Podemos pensar na eutanásia?
Os espíritas advogam que são inúmeras as evidências científicas sugestivas de imortalidade e de reencarnação. Estarão certos os espíritas?
Na mesma época, havíamos participado da criação do Núcleo Espírita Universitário do Fundão. Nele incentivamos a formulação de perguntas. O critério foi “perguntar não ofende”.
Procuraríamos as resposta e as ofereceríamos em outra reunião. Deu certo e “passamos recibo de ignorância” em muitas oportunidades. Para evitar frustrações solicitávamos uma prorrogação para trazer a solução, mesmo que a resposta fosse “não temos ainda solução”, por enquanto. Respostas foram oferecidas. Vamos a algumas perguntas, como exemplo.
Onde fica o espírito de uma pessoa viva? Os espíritos sofrem? Existem curas espirituais e poderiam ser avaliadas cientificamente? É normal que médiuns utilizem instrumentos cirúrgicos? O que é a morte? Existe reencarnação, como provar? O que é ser médium? Pasteur era médium? Por que não vemos comunicação de caboclos e preto-velhos, nas reuniões espíritas? Astrologia: sim  ou não? Você acredita em horóscopo?
Numa outra ocasião não fiz perguntas mas advertência, severa, sobre a problemática da negligência, da imprudência e da imperícia profissional. Mas, para isso foram necessários muitos anos de experiência vivida e trabalho prático braçal. Socializamos quase tudo em revistas e congressos. É uma equipe pequena, mas muito guerreira..
Microbiologia in foco. Informativo SBM. Ano 3/2010.
As publicações e comunicações, embora não tenham grande expressão acadêmica, são importantes sobre o ponto de vista ético-pedagógico. Neles as perguntas não são explícitas, mas as respostas são autorais, com 90% de transpiração..

Peço perdão pela indicação musical “relaxante”. Sabemos que gosto não se discute. Mas, pergunto: mesmo nesse caso poético “não tem solução”?

A CIÊNCIA DO ESFORÇO DE AUTO SUPERAÇÃO Jorge Hessen




Jorge Hessen

Não obstante todo nosso avanço no conhecimento científico, sociológico e filosófico, o que sabemos sobre pessoas portadoras de limitações físicas é insipiente e, ainda hoje, apinhado de vieses e preconceitos teóricos. A sociedade tendo expectativas distorcidas quanto aos "deficientes físicos" , trata-os, quase sempre, como “coitadinhos” e dignos de comiseração. Porém, é imperioso proporcionar ao portador de limitação física uma participação ativa no processo sócio-político-histórico-cultural da sociedade e os resultados admiráveis ocorrerão. 

Observemos alguns grandes exemplos de auto superação: 

Anaya Eliick, uma menina americana de sete anos que nasceu sem as mãos venceu um concurso de caligrafia nos Estados Unidos. Natural de Chesapeake, no Estado da Virgínia, Anaya não usa próteses e apoia o lápis nos braços para escrever. Foi a vencedora entre 50 outros alunos que participaram do concurso nacional de caligrafia e levou para casa o prêmio na categoria “necessidades especiais”, que contempla estudantes com alguma deficiência física ou cognitiva. 

Jessica Cox, outra americana, nascida sem os braços, por conta de uma enfermidade congênita, vem ganhando popularidade nos Estados Unidos como exemplo de superação. Ela se tornou a primeira pessoa a conduzir uma aeronave somente com os pés e conseguiu um brevê de piloto. Cox não se entrega aos limites físicos e não se prende ao “não posso”, costuma dizer ante os desafios “ainda não consegui”. Sob esse raciocínio, acredita que quando na limitação física não se pode fazer algo, mas pode-se buscar meios de superação a fim de vencer, quebrar limites, expandir, ampliar horizontes, levando a barreira limite para mais distante do ponto anterior.

A jovem Flávia Cristiane Fuga e Silva, brasileira, de 26 anos, portadora de paralisia cerebral, recebeu sua carteira de advogada, após cinco anos de faculdade e três exames da OAB-SP. Flávia praticamente não fala e se locomove com o auxílio de uma cadeira de rodas. Foi aprovada no exame 133, da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB/SP, realizado em agosto de 2007, em que 84,1% dos 17.871 candidatos foram reprovados. É uma façanha estupenda, sem dúvida. Segundo o presidente da OAB, em São José dos Campos, Luiz Carlos Pêgas, "a aprovação de Flávia foi um marco. A OAB, em São Paulo, sempre defendeu os fisicamente limitados, mas não tinha advogados com paralisia cerebral.

Mais um extraordinário exemplo é Alisson Fernandes dos Santos, que defendeu dissertação de mestrado na Universidade Federal do Paraná UFPR (auxiliado por um intérprete). Com problema congênito que lhe causou surdez profunda bilateral ele se comunica apenas via leitura labial. Alisson concluiu o mestrado aos 32 anos. Formado em farmácia e bioquímica, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), acabou de receber o título de mestre em ciências farmacêuticas com ênfase em análises clínicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é o primeiro aluno surdo a receber o título na instituição. 

O orador e notório escritor espírita, Jerônimo Mendonça, foi um excelso modelo de auto superação em face dos limites físicos de que era portador. Completamente paralítico por mais de três décadas, sem mover nem o pescoço, cego por mais de vinte anos, com artrite reumatóide que lhe produzia dores agudas no peito e em todo o corpo, era carregado por mãos amigas por todo o Brasil a fora para proferir palestras. Acamado no leito ortopédico, depois de perder o movimento das pernas, dos braços e a visão, Jerônimo criou uma gráfica, escreveu 5 livros, gravou 2 LP’s (discos de vinil) e em 1983, fundou algumas instituições espíritas. Era amigo de Roberto Carlos, amizade que induziu ao “Rei” a colaborar materialmente para que Jerônimo fundasse a mais importante obra assistencial de sua vida, o Lar Espírita Pouso do Amanhecer, em Ituiutaba, Minas Gerais, que atendia desde então 200 crianças carentes diariamente.

Como não citar Antônio Francisco Lisboa, "o aleijadinho", vítima de uma hanseníase deformante, mas isso não o impediu de insculpir diante da Igreja do Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo/MG, 66 estátuas da via Crucis, em cedro-rosa e 12 estátuas dos profetas, em pedra-sabão, entre outras obras-primas do barroco brasileiro. 

Os preceitos espíritas nos remetem a entender que somos sempre herdeiros de nós mesmos, motivo pelo qual é importante que nos esforcemos, a fim de irmos mais além dos limites e crescermos emocionalmente, amadurecendo conceitos e reflexões, aspirações e programas reencarnatórios, cuja materialização nos submetemos.


Em face disso e por força das leis que governam os destinos, cada criatura “normal” ou “deficiente física” está ou estará em luta consigo mesma, a seu modo, consoante seu quadro provacional, adquirindo a ciência do esforço, e dentro da grade dos sentidos fisiológicos e ou espirituais cada qual receberá gloriosas recompensas noutras oportunidades de trabalho para que em todas as ocasiões possa exemplificar os valores da auto superação.