PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Espiritismo, Suicídio e Usuários de Substâncias de Abuso.


Luiz Carlos Formiga
Em 1994 surgiu o “Programa de Prevenção de Suicídio Fita Amarela”, que se tornou internacional, 47 países. A data de 10 de setembro tornou-se o dia mundial de prevenção, pois falar de suicídio pode salvar vidas.
Num Hospital Universitário, pesquisadores encontraram a taxa de 83,6 na faixa etária de 10-49 anos. Portadores de transtorno mental e usuários de substâncias de abuso eram 50,9%.
A maior parte das comunidades terapêuticas é mantida por comunidades religiosas. Hoje há um maior numero de pesquisas e discussões acadêmicas sobre a relação entre religião, espiritualidade e saúde mental.
Investigações passaram a demonstrar que pessoas religiosas não eram sempre neuróticas ou instáveis. Indivíduos com fé religiosa profunda na realidade pareciam lidar melhor com estresses da vida. Recuperavam-se mais rapidamente de depressão, apresentando menos ansiedade e outras emoções negativas. Assim, religiosidade e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores protetores ao consumo de drogas.
Os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando seu tratamento é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico.
As entidades religiosas são importante recurso comunitário de apoio ao tratamento da dependência química. Devido ao papel de assistência social das religiões a exploração deste tema pode ser de grande relevância para a saúde pública em países como o nosso.
Na década de 1980 foi produzido um vídeo contando com a participação de espíritas profissionais de saúde. Nele, recebemos a tarefa de dar o enfoque espírita ao problema da droga. Não poderiam ser esquecidos três pontos fundamentais: o encontro de uma personalidade com uma droga psicotrópica, dentro de um certo grupo ou contexto sócio/cultural.
O documentário discutiu diversas questões, vejam algumas: como explicar a vulnerabilidade de determinadas pessoas? As drogas podem trazer à tona instintos primitivos arquivados no inconsciente profundo? Que tipo de educação recebida pela criança pode favorecer seu consumo?  A dependência pode ser provocada por espíritos desencarnados? Por que pessoas bem sucedidas na vida, executivos, artistas, consomem drogas? Como o Centro Espírita pode ajudar na prevenção? As taxas de consumo são mais elevadas no subconjunto populacional em que as famílias não são coesas? E, a família como vai?
Convidamos agora ao exame de parte do documentário, transcrito abaixo, resgatando memórias e alguns textos mais recentes indicados para leitura adicional.
Se a comunidade religiosa é importante na ajuda aos usuários de drogas, poderá ser útil também neste Setembro Amarelo.
“O Evangelho é portador de todos os ensinamentos essenciais e necessários, sem nos impor a necessidade de recorrer a nomenclaturas difíceis, distantes da simplicidade com que o Mestre nos legou a carta de redenção, na qual nos pede atenção amorosa e não teorias complicadas.” Emmanuel/Chico Xavier. Caminho, Verdade e Vida. Lição 160. O Varão da Macedônia.
Dependência Química e Espiritismo (parte 4/5)
A Doutrina Espírita não libera o indivíduo do tratamento com profissionais de saúde competentes, seja da área da Psicologia ou da área Médica. Junto fazemos um tratamento que é importante, porque ele visa ao que chamaríamos de “evangelização do paciente”. Porque nessa questão que estamos desenvolvendo, o que deve ser tratado é a vida emocional infantil, dos espíritos imperfeitos, que passam pela problemática das drogas.
Então, nós vamos fazer um trabalho de evangelização do paciente, no Centro Espírita, para que ele possa desenvolver, ao longo do processo, altos níveis de consciência, até que ele possa acordar a consciência, antes estava adormecida, e possa atingir estágio mais alto de consciência lúcida, porque quando atinge esse estágio ele apreende a verdadeira realidade; reconhece o verdadeiro sentido da própria vida.
Esse indivíduo nesse nível de consciência, percebendo agora o verdadeiro sentido da vida, passa a ter as taxas de consumismo decaindo, rapidamente. Aquilo que muitas vezes não interessa à sociedade, onde está inserido.
Na medida em que vai frequentando a Casa Espírita ele vai desenvolvendo o domínio da afetividade e atingindo níveis mais altos de consciência, ele também começa a se libertar do problema, sob o ponto de vista psicológico-espiritual.
A Casa Espírita não fica aí. Nós temos outros recursos, que podem ser valiosos para o paciente. À semelhança do que ocorre em outras doenças, quando você apresenta um processo de intoxicação por alguma droga, nós fazemos uma desintoxicação. Seria uma fase chamada de “soroterapia”, para neutralizar o veneno, como acontece numa mordida de cobra.
No Centro Espírita fazemos a desobsessão. Porque, como o homem é de natureza espiritual, nós percebemos que existe a possibilidade de espíritos desencarnados exercerem pressões sobre os espíritos ainda encarnados. Então há um processo que chamaríamos de “espirítopatia”, que é o predomínio de uma mente sobre a outra. Nós poderíamos pensar em tipos diferentes desse processo.
Espíritos simplesmente sofredores encontram indivíduos com personalidade frágil e que estão envolvidos com o problema das drogas. Encontrando sintonia mental eles se acoplam ao processo, numa verdadeira fusão perispiritual, dos corpos espirituais. Nessa fusão então há o agravamento causado pelos espíritos, pelos espíritos sofredores.
Mas existem também espíritos que não são apenas sofredores. Eles são muito mais imperfeitos, muitas vezes são maus, capazes de subjugar o indivíduo, imprimindo-lhes o seu pensamento e modificando-lhes a vontade. O indivíduo passa então a necessitar de doses cada vez maiores da droga e com maior frequência, num processo extremamente difícil de ser trabalhado no Centro Espírita, porque não depende exclusivamente da Casa Espírita, depende também da vontade do obsidiado de se desligar de seu obsessor.
Então nesse processo de subjugação, em que há um predomínio forte de uma mente sobre a outra, há necessidade de um bom trabalho na Casa Espírita, de uma reunião, que chamamos de desobsessão.
Essa obsessão, a contrição de um espírito sobre o outro, pode se processar num nível que passa por aquilo que chamamos de fascinação. Isso nós vamos encontrar em executivos, nos artistas, que diante de todo um processo de fama, acabam entrando nas drogas.
A droga os ajuda a criar, a permanecerem mais ativos. Isso, muitas vezes, é ocasionado pela fascinação de um espírito que trabalha envernizando o seu ego, e ele vai entrando nesse processo de dominação, que também é um pouco mais difícil de ser resolvido. Mas esse trabalho existe na Casa Espírita e é um trabalho de amor.  Você trabalha tanto o indivíduo que consome as drogas, quanto o espírito que o leva a consumir ou auxilia esse processo de consumo, tratando os dois doentes e tentando fazer essa separação.
Mas, na realidade em Doutrina Espírita não há separação, porque o amor une. Ou seja, nós vamos trabalhar as duas personalidades a encarnada e a desencarnada para que ambas atinjam um alto nível de consciência e possam perceber o verdadeiro sentido da vida, quando isso acontece evidentemente a cura é mais rápida.
Por isso que a Doutrina Espírita tem muito a oferecer nesse campo.
Mas, além disso, é feito outro tipo de trabalho. Já que a Doutrina Espírita não utiliza medicamentos, nós trabalhamos com o nós chamamos de água fluidificada.
Nós sabemos que a água é veículo poderoso para carrear energias, medicamentos energéticos, colocados pela espiritualidade. A água é utilizada não apenas nesses casos.
Além de água fluidificada a terapêutica espírita utiliza um processo, que foi ensinado inicialmente por Jesus, que é o “Passe”, a imposição de mãos. E nesse passe, nessa imposição de mãos, o que é veiculado ao indivíduo, para o seu fortalecimento perispiritual é aquilo que nós chamamos de bioenergia. Essa bioenergia é aquela mesma que, no laboratório de Bioquímica, é capaz de modificar a cinética de uma enzima, ou seja, através do passe é possível acelerar a atividade de uma enzima ou realizar fenômeno inverso, dependendo da orientação para a cura do paciente.
Então em síntese: a terapêutica espírita está baseada na educação do espírito, no sentido de um crescimento espiritual; no afastamento de espíritos que podem estar acoplados ao processo e um tratamento do corpo perispiritual, que é lesado nessas condições, através da água fluidificada e do passe, como Jesus nos ensinou.
Leitura adicional
Observação.  Dependência Química e Espiritismo
Parte 1/5
Parte 2/5
Parte 3/5
Parte 5/5

IDENTIDADES DO UNIVERSO ORANTE

Margarida Azevedo
Ao tempo de Jesus, o Judaísmo não tinha um centro de ortodoxia. O próprio Templo não era um centro unificador ideológico. A ele convergiam os grupos mais diversos, tais como baptistas, zelotas, farizeus, aos quais se juntou um novo grupo, os cristãos.

Para além das abordagens teológicas que caracterizavam cada grupo, face à Lei e aos profetas, bem como as singularidas ritualísticas entre si (os banhos rituais entre os essénios, por exemplo), o modo de orar era um elemento identitário característico. Orar com os essénios não era o mesmo que com os zelotas.

Este elemento, porém, não caracteriza o orante quanto ao “quem é”, mas quanto ao “como é”. “Diz-me com quem oras, dir-te-ei como és”, isto significa que o modo de orar é identitário da espiritualidade do orador. Dito de outro modo, “Com quem oro é como eu sou”: essénio, zelota, cristão, etc.

Ao “quem é” responde-se: “É X, o filho de Y; “É A, mulher dos filhos de C”; “É D, da localidade Z”. Há o recurso ao exterior a si para identificar uma identidade parcial, tal como tribo, família, nacionalidade e naturalidade.

Ora, o ”como é” é mais complexo do que o “quem é”. O “quem é” pertence ao nome, ao que é discriminável no espaço e no tempo; o “como é” fala de uma natureza que ultrapassa as questões do nome, é uma identificação fora da impressão digital familiar, tribal ou religiosa.

Pergunta-se: O que é orar? É sentir estadios de consciência; sensações inefáveis, desapossar-se de si; é acreditar que algo vai acontecer e que se gosta; é estar espectante; é, basicamente, mudar o sentido às palavras por meio de uma vontade. Orar é sentir forças e esperar que elas ajam sem barreiras.

Por meio dessa vontade, o orante apela simultaneamente à transformação do mundo. Por isso, a oração é tanto mais sublime quanto mais se espalha, transpondo o débil e limitado horizonte do orante. Como é que se dá esta passagem? De que forma o “como é” se transcende e se ulrapassa? Na oraçâo, há uma possessão característica, pois aquele que ora sente-se possuído por forças. Ao expor-se-lhes, surgem revelações donde a maior é tomar consciência de que algo infinitamente grande se minimiza descendo ao muito pequeno, num momento de uma intimidade que se não expressapor palavras, fazendo-as surgir, num sem sentido, o mesmo é dizer, num sentido que não lhes pertence, num ímpeto de dizer o indizível. O ”como é” une-se ao universo de tal forma que este toma as dimensões do seu coração.

Não se pense que isto tem a ver com o universo mágico. Não se trata de uma coisa passar a ser outra, mas de se manter a mesma, porém com outro modus operandi. Isto é, os afectos exortam o “como é” a que, fervorosamente e por meio de práticas que agradem ao Absoluto, suplique a Sua presença junto de si e do mundo. O material e o imaterial encontram-se no sem sentido das palavras do “como é”.

Este sente-se, por isso, interprete no universo discursivo do outro/novo sentido das palavras, o que para ele significa poder. A palavra pode curar, libertar, purificar, apoucar o mundo à palma da sua mão.

Será o universo “como é” um mundo de fantasias, criador de super-poderes, paradigma de inconscientes perturbados ansiosos de liderança? Para bem das nossas consciências, entende-se por oração um discurso para o bem. Se com Jesus temos o Pai Nosso, oração identitária dos cristãos, que põe em cheque a dimensão hipócrita da vida, e acaba radicalmente com o sistema religioso da troca, temos, por outro lado, como complemento, o cosmopolitivismo da força da palavra, pois o Pai Nosso é uma oração cósmica e passível por ser dita em qualquer credo. Isto é, a cordialidade e o bom entendimento entre todos os que vivem debaixo do Sol é elemento purificador tão forte que dá sentido e força à oração. É identitária para os cristãos, mas é universal na boca do seu profeta. Como ela aprendemos que orar e estar de mal com alguém é anular a força da oração e, reciprocamente, o que é pretendido atingir.

Daqui se infere o quanto ainda estamos longe de tais vivências. A nossa fragilidade leva-nos a cair numa lógica implacável: Dar a Deus para que Deus dê. Logo, quem mais dá mais recebe; o outro é mau, não posso aproximar-me dele. Erro puro.

Não somos fatalmente infelizes, somos cruelmente hipócritas. As longas preces são uma teatralização. A oração em grupo transformou-se num espectáculo para atrair fiéis. Para não se tornarem enfadonhas e despropositadamente repetitivas, o ministrante faz-se auxiliar de equipamentos apelativos.

Além disso, o universo orante não é compatível com o negócio. Ninguém paga a ninguém para orar porque todos nascem preparados para o fazer. Isto significa que a oração é o discurso de um particular que se transcende. Esta força inata impõe-se por uma espiritualidade centrada na misericórdia da Divindade, que a todos dá os meios salvíficos. Assim, Aquele a Quem se ora não nos ama por muito orarmos, nem por muito lhe ofertarmos sacrifícios e outras oferendas. Ele ama-nos antes de nós O amarmos, e porque somos amados conseguimos amar. Temo-Lo dentro de nós.

É este o apontamento a registar no nosso coração. Estamos perante um novo registo existencial que consiste numa mudança radical, de tal forma que corta pela raíz com a lógica negocial.

Com Jesus, inaugura-se o dom do amor como a transcendência da palavra que, na oração, tem o poder ilimitável do Bem.