PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "HUMBERTO DE CAMPOS"

domingo, 19 de fevereiro de 2017

“Fora da Caridade não há Salvação”

Domingos Cocco




Em sua crônica intitulada “Espíritas e Católicos”, publicada no jornal “A Gazeta” de Vitória, ES, no dia 14/10/2009, diz, em certo trecho, o Desembargador Dr. João Baptista Herkenhoff: 

(...) “Se nos debruçarmos sobre os diversos municípios do Espírito Santo para descobrir, em nossas cidades, instituições que se abrem para o próximo, que se condoem de presos e de prostitutas, que buscam encaminhar crianças, que se dedicam ao cuidado de seres humanos marcados por déficits físicos ou mentais, veremos que muitas dessas instituições ou a maioria delas, são levadas avante por seguidores do Espiritismo” (...) 

Realmente. Se fizermos um retrospecto das instituições implantadas em Cachoeiro de Itapemirim, ES, “que se dedicam ao cuidado de seres humanos”, constataremos serem, “muitas delas”, de iniciativa dos “seguidores do Espiritismo”.

É verdade que, desde 1900, a “Santa Casa de Misericórdia” vem atendendo a população da nossa cidade e do sul do nosso Estado, com “misericórdia”, praticando, desta forma, a “caridade” anunciada por Jesus (Mat, XXV, 34 a 45). Também é verdade que, com o decorrer dos tempos, pessoas tomadas por um sentimento cristão, têm criado instituições de auxilio à crescente população local. Porém, a partir de 1913, muitas outras foram erguidas por Espíritas.

Naquele ano, mais precisamente no dia 14 de julho de 1913, foi inaugurada, à rua 25 de Março n° 109, centro, a “Associação Espírita Beneficente e Instrutiva” que, além das tarefas espíritas, doutrinárias e mediúnicas, mantinha, nos fundos do prédio, um albergue noturno, para aqueles que chegavam à cidade e não tinham onde ficar, como também uma escola primária. Em 1916, instituiu a Liga Brasileira Contra o Analfabetismo, mais tarde Liga Espírito-Santense, visando a que não houvesse mais analfabetos, crianças ou adultos, no centenário da independência do Brasil, em 1922. 

Hoje, com o nome de “Associação Espírita Jeronymo Ribeiro”, ocupa-se com a divulgação do Espiritismo e com a assistência social.

Já em 1918, foi inaugurado o “Asilo Deus Cristo e Caridade”, no “Sitio Santa Fé”, hoje bairro São Geraldo, a 4 km do centro da Cidade, para abrigar órfãos, velhos e doentes mentais e, mais tarde, com o nome de “Lar Jeronymo Ribeiro”, crianças, em regime de internato. 

À frente dessas instituições, estava o seu fundador presidente Jeronymo Ribeiro, um português nascido na aldeia Lamas, Conselho de Penela, distrito de Coimbra, em 17 de março de 1854. Com o seu falecimento, em 05 de outubro de 1926, assumiu a direção das organizações, tornadas única, o poeta Luiz de Oliveira, que, deixando o seu cargo de “auxiliar de escrita” na Casa da Moeda no Rio de Janeiro, veio residir nas dependências do “Asilo”, com a sua esposa Ipoméa Braga de Oliveira, até o seu falecimento em 27 de julho de 1960.

Em 10 de fevereiro de 1952, ao fundar-se a Mocidade Espírita, como departamento do “Centro Espírita Jeronymo Ribeiro”, situado à rua Batista Fluminense n° 08, centro, foram criadas e mantidas pelos jovens por mais de trinta anos, uma Campanha do Quilo, denominada Pedro da Rocha Costa, para atender mensalmente, com gêneros alimentícios, às “Famílias de Jesus”, como eram conhecidas, uma farmácia, com distribuição de remédios à população, a Campanha de Inverno e de Natal, com distribuição de gêneros variados. 

Em março de 1972, foi inaugurado o “Lar Nina Aroeira”, à rua Irineu Hermógenes dos Santos n° 20, bairro Nossa Senhora da Penha, de responsabilidade do “Centro Espírita Manoel Cândido”, para abrigar e manter idosos. 

No dia 29 de junho de 1971, o “Centro Espírita Jeronymo Ribeiro” colocou, à disposição da população do sul do Estado, o “Hospital Infantil Francisco de Assis”, à rua Coronel Guardia n° 62, bairro Sumaré, entregue à Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, em 1997 

O conceito “fora da caridade não há salvação”, propagado pelo Espiritismo, é o amor praticado.



Cachoeiro de Itapemirim, Estado do Espírito Santo.
Domingos Cocco
Rua Raul Sampaio Cocco – Bairro Sumaré
Telefone: (28) – 3522-4053 – CEP – 29304-506
domingoscocco1931@yahoo.com.br 
Cachoeiro de Itapemirim - Estado do Espírito Santo

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Movimento espírita Pós Kardec - episódios e declínio doutrinário na França (Jorge Hessen)

Pierre-Gaëtan Leymarie - Coveiro de Kardec


Jorge Hessen


A propósito do declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, inicialmente entronizamos a figura de Ermance Dufaux, ela que conheceu Allan Kardec no dia 18 de abril de 1857, ao comparecer à pequena recepção festiva organizada pelo Codificador em sua residência, com a finalidade de comemorar o lançamento de O Livro dos Espíritos. No final dessa reunião, Dufaux psicografou bela página ditada pelo Espírito São Luís, que se tornaria, a partir de então, o diretor espiritual dos trabalhos experimentais de Allan Kardec.
No final de 1857, Dufaux receberia outra importante mensagem, estimulando o Codificador a prosseguir no ideal de lançar mensalmente um periódico espírita. Com efeito, no início de 1858, Kardec laçou a Revue Spirite, surgindo assim a matriz da propaganda da Terceira Revelação e o embrião do Movimento Espírita Mundial.
Na França o nome de espíritas foi gradualmente abatido ao longo dos séculos XIX e XX. Para isso, ocorreram alguns fatos que explicam: como a desencarnação, em 1869, de Allan Kardec, bem como também a mudança de regime político, porquanto após a queda do Segundo Império, a República é proclamada em 1871.
Momentos antes, porém, em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após a desencarnação de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. Em face disso, a divulgação espírita sofreu enormes prejuízos, destacando-se que à época, como se não bastasse a fatídica guerra franco-prussiana, de maneira simultânea também havia uma onda de pensamentos oriundos da Revolução Francesa, intensificando a ideia do laicismo, proibindo-se, portanto, qualquer relação entre as entidades estatais com “religião”.
Diante de outras “pistas”
Apontaremos algumas outras “pistas” para opinar sobre o  declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec. Em princípio, cremos que os legados históricos do Espiritismo sofreram as implicações danosas, por terem sido tratados como bens de família, estabelecendo espólios e, por conseguinte, sujeitando a herdeiros. Tudo sugere que Kardec pretendia evitar isso ao idealizar uma sociedade impessoal, mas não teve tempo. Faleceu antes de concretizar seus planos e, consequentemente tudo o que pertencia à Codificação Espírita (Sociedade parisiense de estudos espiritas, livros, revistas, correspondências, documentos etc.) tornaram-se herança da viúva Amélie Gabrielle Boudet.
De início, Boudet se propôs administrar o projeto do esposo; mas, inexplicavelmente, deliberou por confiar o legado nas mãos de Pierre-Gaëtan Leymarie, que organizou a (não espírita) Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, que depois se transformou na “Sociedade Científica do Espiritismo”Mas Boudet sugeriu a criação da “Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec”. [1] Após a desencarnação de Amélie Boudet, em 1883, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos espólios e dos documentos de Kardec, na condição de único remanescente da tal sociedade. Uma parte, dos documentos originais do Codificador foi sendo publicada por Leymarie na “Revue Spirite”, e outra parte transformou na inquietante “Obras Póstumas”.
O declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, na minha percepção e de alguns outros pesquisadores, se deve precipuamente à imaturidade doutrinária de Pierre-Gaëtan Leymarie que teve o encargo, portanto, de cuidar da propagação do Espiritismo após a desencarnação do mestre de Lyon. Neste sentido, parece-nos que administrou “inocentemente” uma razoável quantidade financeira que lhe foi entregue por Amélie Gabrielle Boudet para o custeio da divulgação das obras espíritas. 
Os expressivos recursos econômicos deveriam ser empregados na propaganda criteriosa do Espiritismo. Mas isso não foi claramente realizado. Motivo pelo qual, provavelmente em 1882, Gabrielle Boudet, inteiramente descontente, convidou à sua casa Gabriel  Delanne e esposa, a fim de propor a criação do periódico "Le Spiritisme", para que o Movimento Espírita não dependesse apenas da já agonizante “Revue Spirite" dirigida por Leymarie.
A liderança do Movimento Espírita poderia ter sido compartilhada entre Leymarie e Gabrielle Boudet, mas, a rigor, Boudet ficou historicamente em plano secundário, numa condição de humilhante subalternidade e gradualmente Leymarie foi afastando Amélie Gabrielle das decisões. [2]
Leymarie ,  protagonista para o desmoronamento doutrinário
Leymarie imergiu na invigilância, gerando o desfalecimento do Movimento Espírita já quase totalmente desintegrado. Cremos que a sucessão de Kardec deveria caber a Alexandre Delanne, até porque era vizinho e amigo de longa data da família Kardec, jamais a Leymarie.
Delanne viajava bastante, esteve nas cidades onde existiam centros de divulgação espírita como, Lyon, Bordeaux, Bruxelas entre outros locais que visitava com certa frequência os centros espíritas. Concebemos que Delanne tenha sido bloqueado "politicamente" por Leymarie. Sim, talvez o invigilante Leymarie tenha articulado nos “bastidores” com Boudet a fim de “puxar o tapete” do pai de Gabriel Delanne.
Mas, quem era Leymarie? Era um praticante de Teosofia de Blavatsky, defendia as alucinações de Roustaing [3] e era apaixonado pela maçonaria.
Importa mencionar que quando Kardec desencarnou Gabriel Delanne tinha apenas 12 anos de idade e Léon Denis tinha 23 anos e serviria o exército na guerra franco-prussiana de 1870 e, apesar de já espírita, Denis ainda não estava satisfatoriamente integrado ao Movimento Espírita. Desta forma, ambos, Delanne e Denis, passaram a exercer maior influência no Movimento Espírita somente por volta da década 1890 e, principalmente, a partir de 1900, momento em que se projetaram mais.
A França enfrentou três grandes guerras (a “franco-prussiana” de 1870 e as duas grandes guerras mundiais), o que, sem dúvida, dificultou muito a propagação do Espiritismo. Na Primeira Guerra Mundial muitos grupos e sociedades espíritas tiveram que ser fechados. Sob esse clima houve brutal sufocação do Movimento Espírita em francês.
Como se não bastasse, no contexto dos idos de 1910, podemos pontuar as propostas filosóficas materialistas, abrindo espaço para o niilismo, existencialismo, pessimismo e ceticismo extremos, enfim - os embates ideológicos. Portanto, as guerras foram categóricas para o declínio do Movimento Espírita francês pós-Kardec, mas antes delas, como vimos, a liderança do movimento sofreu tragicamente, principalmente pela falta de lucidez doutrinária, especialmente veiculada pela "Revue Spirite", sob a gerência de Leymarie.
Repetimos que Leymarie foi o protagonista para o desmoronamento doutrinário, por conseguinte muitos espíritas franceses perderam o rumo sob o guante do misticismo imponderado. Para ilustrar, notemos o infame “Processo dos Espíritas”, resultante das reais fraudes reproduzidas por fotógrafos de má fé e publicadas de maneira descuidada por Leymarie na Revue Spirite. Naturalmente esse episódio foi traumático de consequências gravíssimas, ferindo mortalmente o moribundo Movimento Espírita francês.
Nesse caótico quadro de declínio doutrinário há quem assinale outro aspecto especial. Trata-se da questão das excessivas pesquisas científicas em torno dos fenômenos mediúnicos. Havia prioridades nas experimentações laboratoriais com os médiuns. O próprio Gabriel Delanne seguiu esse caminho de pesquisa. Não obstante, Delanne tenha se declarado “arrependido”, numa entrevista concedida ao brasileiro Canuto Abreu, afirmando que a experiência científica não teria sido a sua melhor opção para o revigoramento do Movimento Espírita.
Gabriel Delanne, um depoimento de além-tumba
Sobre isso, André Luiz entrevistou o Delanne no além, notemos: Muitos amigos na Terra são de parecer que os Mensageiros da Espiritualidade Superior deveriam patrocinar mais amplas manifestações da mediunidade de efeitos físicos para benefício dos homens, como sejam materializações e vozes diretas. Que pensa a respeito?
Delanne (Espírito) - “Creio que a mediunidade de efeitos físicos serve à convicção, mas não adianta ao serviço indispensável da renovação espiritual. Os Espíritos Superiores agem acertadamente em lhe podando os surtos e as motivações, para que os homens, nossos irmãos, despertem à luz da Doutrina Espírita, entregando a consciência ao esforço do aprimoramento moral. Devemos estimular os estudos em torno da matéria e da reencarnação, analisar o reino maravilhoso da mente e situar no exercício da mediunidade as obras da fraternidade, da orientação, do consolo e do alívio às múltiplas enfermidades das criaturas terrestres”. [4]
Nos primórdios do século XX houve um surto de crescimento do Movimento Espírita na França até meados da década de 1920, esmaecendo de forma célere quando Denis, Delanne, Gustave Geley e Camille Flammarion desencarnam. Subsequentemente, em 1935, desencarnaria o "Pai da Metapsíquica" e simpatizante do Espiritismo Charles Richet, tudo isso aconteceu momentos antes da Segunda Guerra Mundial, quando da ocupação nazista na França por quase um lustro.
Retornemos mais uma vez a Leymarie. Ele fundou a "Librairie Leymarie Édite-URS" e a dirigiu até 1903, e, com o seu desencarne, o espólio foi herdado (novamente em família!) pela viúva Marina Leymarie que assumiu o comando, e, posteriormente, por seu filho, Paul Leymarie. Este, após um breve espaço de tempo em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, “dono” absoluto dos destinos do Espiritismo até 1914, quando, em função da Primeira Guerra Mundial, abandonou tudo. O que não foi de todo uma catástrofe, pois o Paul Leymarie comercializava até “bolas de cristal” [isso mesmo! “bolas de cristal”] pela Revue Spirite.[5]
Meyer, um mecenas francês
Com a liquidação da "Librairie Spirite", continuou a editoração das obras de Allan Kardec, fazendo do prédio da "Librairie Leymarie" sede da redação da "Revue Spirite", até a fundação da "Maison des Spirites", por Jean Meyer, inaugurada em 25 de novembro de 1923. Antes mesmo de terminar a Primeira Guerra, em 1916, o Jean Meyer, um rico empresário francês, assumiu o combalido Movimento Espírita francês, lembrando que nessa conjuntura ainda estavam encarnados Léon Denis e Gabriel Delanne, que embora sumidades intelectuais e grandes referências doutrinárias; mas “cá para nós”, alguém tinha que cuidar dos “negócios” do movimento.
No contexto Meyer destinou a sua fortuna pela causa do Espiritismo. Ficou com os direitos autorais da Revue Spirite. Criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”), para onde levou o precário material que restou dos documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”. O curioso é que Charles Richet dizia que o “Espiritismo era inimigo da ciência”.
La Revue Spirite reunia, nesse tempo, as mais destacadas personalidades do Espiritismo: Gabriel Delanne, Leon Denis, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano, A. Bénezech, Marcel Laurent, M. Cassiopée, General Abaut, Dr. Gustave Geley, Marcel Semezies, Pascal y Matilde Forthuny, Louis Gastin, Henri Sausse, Paul Bodier, Sir. Arthur Conan Doyle, Santoliquido, Rocco, León Chevreuil, Hubert Forestier e outros. Em verdade, Meyer foi uma espécie de “dono” do movimento espírita francês até sua desencarnação em 1931. [6]
Durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu uma desmontagem quase integral do Movimento Espírita francês. Os nazistas ao ocuparem Paris saquearam tudo inclusive Maison Spirites e confiscaram livros, documentos de pesquisa, e outros objetos importantes da própria história do Espiritismo na França.
Que nos diz acerca do Espiritismo, na França? Esquadrinhou André Luiz Ao Espírito Gabriel Delanne. “ Não nos é lícito dizer haja alcançado o nível ideal”.[7] Redarguiu Delanne acrescentando que “legiões de companheiros da obra de Allan Kardec reencarnaram, não só na França, mas igualmente em outros países, notadamente no Brasil, para a sustentação do edifício kardequiano”. [8]
Transposição do movimento espírita mundial
Conjectura-se aqui e algures sobre o translado do Espiritismo para o Brasil. Temos certeza que a transposição da direção do Movimento Espírita mundial, da França para o Brasil, sobreveio após a desencarnação de Léon Denis, no período entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, portanto, coincidindo com o início da missão mediúnica de Francisco Cândido Xavier.
Desta forma, podemos questionar o desempenho de Bezerra de Menezes como justificadora para tal translado. Até porque, não é difícil comprovar nesse contexto, pois quando Bezerra desencarnou em 1900 a atuação verdadeiramente apostólica de Gabriel Delanne e Léon Denis manteve-se viva por muitas décadas, inclusive durante e após a primeira guerra mundial. [9]
O Movimento Espírita francês voltou a se recuperar com frouxidão por volta dos anos de 1950 e 1960 em razão do regresso à França de alguns cidadãos que residiam no Norte da África (Argélia, Marrocos) e começaram a retornar para a terra de Kardec arriscando remontar o Movimento Espírita.
Encetaram o projeto, todavia com extrema dificuldade, em função do cenário deixado pela Segunda Guerra. Porém, desataque-se que naquela situação começou a haver uma nova fase de interesses e buscas fenomênicas no campo da parapsicologia e da metafísica; por fim, a própria Revue Spirite foi retomada por algumas lideranças a exemplo de Hubert Forestier e André Dumas.

Sepultamento da Revue Spirite
Na década de 1960, Hubert Forestier assume a Revue Spirite e torna-se proprietário que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Forestier desencarna em 1971, deixando o Movimento Espírita francês na penúria. Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. [10] O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas. [11]
André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestígio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”. [12]
Na verdade, Dumas foi escritor e dirigente espírita francês, presidente da União Espírita Francesa (UEF) e diretor da Revista Espírita na década de 1970. Por muitos anos administrou o legado de Kardec e seus seguidores. No entanto, é mais lembrado (no Brasil) pela mudança do nome desta tradicional instituição espírita, em 1976: União Científica Francofônica para a Investigação Psíquica e o Estudo da Sobrevivência da Alma (USFIPES), em vez de UEF.
Nesse mesmo ano, para desagrado de alguns espíritas brasileiros, a tradicional revista fundada por Kardec deixa de circular. Em seu lugar, Dumas, como citamos acima, lança um periódico denominado o Renaître 2000. Segundo ele, as palavras espírita e Espiritismo se descaracterizaram em seu verdadeiro significado, vinculando-se ao misticismo (roustanguista), ao religiosismo. Por isso a mudança.
O resultado foi a completa marginalização de Dumas e a confusão jurídica com a União Espírita Francesa e Francofônica, fundada por Roger Perez em 1985, pelos direitos da Revista Espírita. Dois anos depois a instituição obtém sentença judicial favorável a Perez e a Revue volta a circular novamente após 12 anos de interrupção.
Apesar de ser lembrado como uma espécie de traidor, um “Judas” da causa espírita, Dumas foi um dirigente e um intelectual espírita importante na história do Espiritismo francês. Sua visão, laica e filosófica, destoava da grande maioria dos espíritas, notadamente os brasileiros, afeitos a concepções religiosas e sectárias, influenciados em demasia pelos cânones roustanguistas da Feb.
Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se “comunicou” no grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. (sic) Ele o tenta até hoje. [13]
Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias africanas, resolveu, certamente com o patrocínio da Feb, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.
Certamente com Roger Perez houve uma breve intensificação do Movimento Espírita francês, porém, a bem da verdade, nunca se recuperou, pelo menos em Paris. Sabemos que hoje há diferentes núcleos espíritas no interior da França, mas evidentemente sem as características daquelas propostas por Allan Kardec.

Propagação espírita de pessoa a pessoa, de consciência a consciência
O Espírito Delanne não acredita que a Europa (especialmente a França) retomará a direção do movimento espírita no futuro, pois o Velho Continente assemelha-se, atualmente, a vasto campo de guerra ideológica, que está muito longe de terminar. Para o Benfeitor a divulgação espírita terá de efetuar-se de pessoa a pessoa, de consciência a consciência. A verdade a ninguém atinge através da compulsão. A verdade para a alma é semelhante à alfabetização para o cérebro. Um sábio por mais sábio não consegue aprender a ler por nós. (Grifei)
Talvez esse processo de propaganda espírita seja moroso demais para a Humanidade, mas, segundo Delanne, uma obra-prima de arte exige, por vezes, existências e existências para o artista que persegue a condição do gênio. Como acreditar que o esclarecimento ou o aprimoramento do espírito imortal se faça tão-só por afirmações labiais de alguns dias? [14]
Seja no Brasil, seja noutros países, cremos que a pujança da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de um Espiritismo Oficial, hierarquizado, elitista, exorbitantemente místico e mercantilista, porém na propagação paulatina da Terceira Revelação de pessoa a pessoa, de consciência a consciência, de ombro a ombro, sem as grilhetas burocráticas dos institutos oficiais de unificação, que na Terra e especialmente no Brasil vivem e revivem os fragorosos vendavais intransigentes do poder curial.

Notas e Referências bibliográficas:       

[1] CALSONE Adriano. Madame Kardec, SP: Viva Luz Editora, 2017 “Eis que em 18 de outubro de 1873, a Assembleia Geral Anual concordou com a decisão de substituir o polêmico nome, Sociedade Anônima – criação da viúva Kardec –, para o extenso, Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec, anônima e capital variável. Com a nova recriação, sugerida novamente por Amélie, a mesma deixava claro que tudo deveria convergir para a divulgação, propagação e continuação das obras espíritas do marido.”

[2] Idem

[3] P.G. Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio de Janeiro onde esteve exilado em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

[4] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

[5] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017

[6] Disponível no portal “AUTORES ESPÍRITAS CLÁSSICOS” http://www.autoresespiritasclassicos.com/autores%20espiritas%20classicos%20%20diversos/Jean%20Meyer/Jean%20Meyer.htm ACESSO 17/02/2017

[7] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

[8] Idem

[9] MARMO Leonardo Moreira. “Os Problemas enfrentados pelo Movimento Espírita após a morte de Allan Kardec e as atuações de Delanne e Denis”, disponível em http://paespirita.blogspot.com.br/2017/02/os-problemas-enfrentados-pelo-movimento.html avessado em 17/02/2017

[10] Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica.

[11] DONHA João. O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado? Disponível em https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/ acessado em 16/02/2017

[12] Idem

[13] Idem

[14] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Problemas enfrentados pelo Movimento Espírita após a morte de Allan Kardec e as atuações de Delanne e Denis



Leonardo Marmo Moreira


A palavra "derrocada" muito provavelmente é exagerada, mas, realmente, o movimento espírita francês enfrentou muitas dificuldades após a desencarnação de Allan Kardec.

A liderança do movimento espírita após a desencarnação de Kardec passou a ser "dividida" entre Pierre Gaëtan Leymarie e Amélie Gabrielle Boudet, mas, na prática, a viúva de Kardec passou a ser uma espécie de "presidente de honra", pois lenta e gradualmente, Leymarie foi isolando Madame Boudet das tomadas de decisões (vide a obra de nosso confrade Adriano Calzone, "Madame Kardec"). 

A centralização do poder por Leymarie começou a ser sentida no movimento espírita, em um primeiro momento, através da "Revista Espírita". De fato, o grande periódico deixado por Allan Kardec passou a ser dirigido por Leymarie, que imprimiu uma administração no mínimo "polêmica" (os mais críticos talvez arriscassem afirmar "caótica"). De fato, Leymarie era simpatizante das ideias e dos trabalhos de Roustaing, da Teosofia de Madame Blavatky e até da maçonaria. Assim, alegando estar respeitando o caráter evolutivo da Doutrina Espírita, para não deixar o Espiritismo estacionado no tempo, Leymarie passou a considerar para publicação artigos pouco doutrinários, desde que fossem espiritualistas.

Tais dificuldades acabaram repercutindo, pelo menos indiretamente, no chamado "Processo dos Espíritas" (processo que gerou o livro homônimo traduzido ao português por Hermínio C. Miranda), quando Madame Kardec e Leymarie vão para o banco dos réus em função de publicação de fotos de efeitos físicos.

O próprio Gabriel Delanne terá oportunidade de afirmar que os problemas que o movimento espírita enfrentava tinham sido causados pelo próprio movimento espírita.

Alguns confrades, aproveitando a menção a Delanne, poderiam questionar: Onde estavam Gabriel Delanne e Léon Denis nesse momento?

Quando Kardec desencarnou Gabriel Delanne, muito embora espírita militante, nascido em "berço espírita", tinha apenas 12 anos de idade e Léon Denis, muito embora mais velho que Delanne (tinha 23 anos quando Allan Kardec desencarnou) serviria o exército na Guerra franco-prussiana de 1870 e, apesar de já espírita, ainda não estava muito integrado ao movimento espírita. Ademais, Léon Denis era de Tour, interior da França, e não da capital. Longe de Paris, Denis demoraria mais tempo para ganhar uma certa notoriedade no movimento espírita da época. Tanto Delanne como Denis demorariam um certo tempo para publicar seus primeiros livros espíritas. Apesar de mais jovem, Delanne publicaria antes de Denis. De fato, em 1883 Delanne, já reconhecido como destacado trabalhador espírita parisiense, publicou "O Espiritismo perante a Ciência" e pouco tempo depois Léon Denis publicaria "O Porquê da Vida". Trata-se de um intervalo de aproximadamente catorze (14) anos desde a morte de Allan Kardec. No entanto, o intervalo entre a atuação efetiva no mundo físico de Kardec e a dupla Delanne/Denis, dependendo do tipo de análise, pode até ser considerado maior, pois Delanne e Denis passaram a exercer maior influência no movimento espírita somente da década 1890 e, principalmente, a partir de 1900.

No livro "Entre Irmãos de Outras Terras", da psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira, André Luiz entrevista Gabriel Delanne sobre os problemas que o Movimento Espírita enfrentou na Europa, e sobretudo na França, após a morte de Allan Kardec, e Delanne afirma que a França enfrentou três grandes guerras (a guerra franco-prussiana de 1870 e as duas grandes guerras mundiais), o que dificultou muito o andamento do movimento espírita francês. Essa opinião corrobora a análise de Léon Denis sobre o impacto da primeira guerra mundial sobre muitas sociedades espíritas que tiveram que ser fechadas (vale lembrar a obra de Denis intitulada "O Mundo Invisível e a Guerra").

Portanto, as guerras foram decisivas para os problemas no Espiritismo francês pós-Kardec, mas antes delas, a liderança do movimento espírita sofreu demais após a morte de Allan Kardec, principalmente pela falta de coerência doutrinária, principalmente no órgão de divulgação legado por Kardec, que era a "Revue Spirite". De qualquer maneira, a partir do momento em que Delanne e Denis conseguiram uma justa notoriedade, dentro do seio do movimento espírita, o cenário melhora sensivelmente. Realmente, a partir de então, haverá uma significativa revivescência do movimento espírita francês até meados da década de 1920, quando Denis, Delanne e também Gustave Geley e Camille Flammarion desencarnam. 

Subsequentemente, em 1935, desencarnaria o "Pai da Metapsíquica" e simpatizante do Espiritismo Charles Richet e estaríamos às portas da Segunda Guerra Mundial, que geraria, entre outras dificuldades, a ocupação nazista da França por quase meia década.

Nesse momento, Chico Xavier já atuava no movimento espírita brasileiro, pois já tinha publicado "Parnaso de Além-Túmulo" em 1932 e estava publicando "Cartas de Uma Morta", de Maria João de Deus, e "Crônicas de Além Túmulo" de Humberto de Campos. De fato, Chico Xavier converte-se ao Espiritismo aos oito de Julho de 1927 menos de três meses após a desencarnação de Léon Denis, o último dos quatro trabalhadores citados a retornar ao mundo espiritual (Denis, Delanne, Geley e Flammarion).

Assim, a "passagem do bastão", em termo de liderança do movimento espírita no mundo, da França para o Brasil, salvo melhor juízo, ocorreria, de fato, após a morte de Léon Denis, entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, com o início do mediunato de Chico Xavier, e não com a atuação de Bezerra de Menezes no Brasil. De fato, Doutor Bezerra desencarna em 1900, época que Delanne e Denis estavam chegando ao "auge" de suas atuações espíritas, o que ainda duraria mais de 25 anos! Vale lembrar que o tio espírita de Eurípedes Barsanulfo geraria a "conversão" do querido sobrinho ao Espiritismo em meados da primeira década do século vinte, ao emprestar para ele uma cópia da maravilhosa obra de Léon Denis "Depois da Morte".


Logo, apesar de uma significativa e compreensível "crise" no movimento espírita francês nos anos imediatamente subsequentes à morte de Allan Kardec, a atuação verdadeiramente apóstólica de Gabriel Delanne e Léon Denis manteve vivo o legado kardequiano por muitas décadas, inclusive durante e após a primeira guerra mundial.