PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Rótulos e máscaras


 
Vladimir Alexei
Belo Horizonte das Minas Gerais,
15 de fevereiro de 2018.


Estudar o Espiritismo é algo sublime, capaz de transformar-nos a maneira de pensar e agir em relação a pessoas, situações e de um modo geral, com a própria Vida. Mas estudar o Espiritismo ainda requer estudo, por mais redundante que seja, de tão óbvio.
Houve uma época em que a produção literária espírita, preenchia lacuna significativa, quanto a interpretações daquilo que a Doutrina Espírita revelou. Além do magistral trabalho de Allan Kardec, muitas pesquisas e estudos foram empreendidos com o objetivo de esclarecer pontos e ampliar entendimentos que o Espiritismo, por intermédio dos Espíritos Superiores, lançou luz.
Pesquisadores e pensadores espíritas teceram obras fenomenais, tanto pela forma, como pela profundidade do seu conteúdo. A cada nova interpretação e a cada novo entendimento, uma avalanche de livros era produzido tentando explicar e fazer luzir algum ângulo até então abordado de uma maneira diferente.
Essa diversidade fez com que o espírita tivesse, em suas mãos, um leque extenso de opções para seu estudo, que o movimento espírita convencionou “fragmentar” e rotular em trabalhos de cunho religioso, científico e filosófico. A crítica ao rótulo não é gratuita. Foi um recurso didático utilizado para conseguir melhor transmitir os ensinamentos dos espíritos. Entretanto, após mais de meio século de divulgação do Espiritismo nos moldes atuais, adotados pela esmagadora maioria das casas espíritas que possuem ciclos de estudos, estudos sistematizados, etc., percebe-se, mesmo sem método ou instrumento científico mais adequado, que o estudo do espiritismo ficou mascarado.
A fragmentação, por exemplo, é duramente criticada pelo educador Edgar Morin, quando diz que o retalhamento das disciplinas, torna impossível apreender “aquilo que é tecido junto”. Por que estudar “ciência, filosofia e religião”, quando o que deveríamos estudar é a “Doutrina Espírita”? Será que “tríplice aspecto” da doutrina consegue explicar a complexidade do que o Espiritismo aborda? Quando dizemos Doutrina Espírita, aplicamos um “zoom” que evidencia as inter-relações entre os conhecimentos (“tecido junto”), deixando claro que há mais do que um tríplice aspecto. No entanto, a aplicação do conteúdo fica a cargo do expositor, que pode abordar assim ou não.
Talvez – e esse é outro ponto da nossa reflexão –, quando iniciaram os estudos, no início do século XX, traduzir o pensamento das obras de Kardec, comportava um nível de abordagem que preservasse muito mais o entendimento e a interpretação, no sentido de “simplificar”, do que de ampliar considerações daquele aprendizado em relação a outros temas do cotidiano. Isso muda quando Dr. Carlos Imbassahy (Pai) assume a pena e nos dizeres do Herculano Pires, em sua “fortaleza” direto de Niterói, consegue relacionar as descobertas científicas com as revelações doutrinárias e tecer comentários filosóficos a respeito de conclusões – ilações, hipóteses, inferências, etc., todas válidas no campo da exposição de ideias –, que poderiam agradar ou não espíritas e não espíritas.
O movimento espírita – não o movimento de unificação, que não unifica nem entre eles – tem sido convidado a rever a eficácia e os objetivos do aprendizado, consequentemente, das atividades doutrinárias da casa espírita. Será que ainda buscamos “unanimidade” ou aprendemos com a diversidade nas casas espíritas?
Unanimidade é utopia no mundo atual, beirando a atrofia. Convergências de entendimento, ainda que existam diferenças na construção do conhecimento, são desejáveis. Veja um exemplo: “se dou comida aos pobres, todos me chamam de santo. Mas quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Essa frase do Dom Helder Câmara ilustra a diferença dos pensamentos e a sua complexidade. Tentar simplificar, rotula. Explicar: mascara porque evidencia apenas a compreensão daquele que está expondo o pensamento. Na complexidade do mundo atual, percebe-se que há muito conhecimento e informação entre os extremos para se tomar uma decisão simplista.
Nesse sentido, sabendo que as necessidades humanas estão cada vez mais globais, complexas e com níveis de exigência dantes observado, um leigo, neófito, apenas curioso, que enfrenta críticas, se expõe, tendo apenas como instrumentos diminuta experiência e uma convicção pessoal, não tem alcance e nem competência para empunhar bandeira que não seja aquela de provocar, estimular e refletir acerca do que temos visto, vivido e aprendido na Doutrina Espírita.
Desconstruir rótulos começa com a revisão do próprio papel de divulgar o espiritismo. Ao contrário do que muitos divulgadores dizem, quando assumem a tribuna, ouso refletir com os amigos, que não está faltando Kardec, nem obras de conteúdo doutrinários, nem muito menos estudo. Está faltando amor, benevolência, simplicidade.
Simplicidade é diferente de simplismo. Com as redes sociais, reduziram as discussões a críticas contumazes, sem ao menos apresentar argumentos. Quando as questões apontam para o “comportamento”, alguém se manifesta contrário, lamentando que a discussão “sempre” redunda em questões comportamentais. Todo aprendizado religioso, moral, filosófico, de alguma forma afeta o comportamento. Circula vídeo no whatsapp do Padre Fabio de Melo falando sobre a “quaresma”. Em linhas gerais, o convite dele é para que o católico substitua a abstinência por comida e bebida, por melhorias no comportamento. Qual o problema do espírita de hoje em entender isso?
Precisamos resgatar a linha mestra que nos vincula aos primeiros cristãos, aqueles que sentiram o perfume da presença do Mestre, seguiram seus passos, sonhavam com suas prédicas, criavam conexões de Suas parábolas com os desafios do cotidiano. Resgatar a alegria de servir, a beleza de amar desinteressadamente, de auxiliar o próximo, mais próximo, a partir de uma renovação interior, capaz de nos mostrar a grandeza da vida e seu aprendizado.
Que as dificuldades do caminho não nos paralisem os gestos nobres. Que o desejo de servir seja maior do que os rótulos e máscaras que existem no caminho. E que a presença do Cristo seja constante em nossas vidas, hoje e sempre.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Kardec e a divergência na forma de escrever o seu nome civil

Paulo Neto


“[…] quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma só fonte, porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo.” (KARDEC, O que é o Espiritismo)
Ao longo do tempo, vínhamos observando que o nome civil de Allan Kardec apresentava, para nossa surpresa, variações na ordem das palavras que o compõem. Até então, não havíamos nos preocupado muito com isso, entretanto, ao preparar a palestra Terceira Revelação – Espiritismo e Kardec, para ser apresentada no Grupo Espírita de Fraternidade Albino Teixeira, em Belo Horizonte, MG, voltamos a perceber essa divergência, daí resolvemos pesquisar para, se possível, conhecer as causas disso, porquanto intrigou-nos demais tal fato.
Estaremos apenas levantando a questão da ordem das palavras, portanto, não tentaremos buscar as informações sobre usar “z” ao invés de “s” em Denisard, um “p” ou dois “pp” e “i” ao invés de “y” em Hypolite, fatos que estamos registrando para que você leitor tome ciência disso.
Quando formos referenciar os documentos usaremos a numeração que colocamos em cada fonte, conforme constam nas Referências bibliográficas.
Vamos denominar de “Documentos oficiais”, aqueles produzidos por órgão público ou particular encarregado de algum tipo de registro e de “Documentos não oficiais” os provenientes de outras fontes, incluindo, aí algumas produzidas pelo próprio Kardec.
Nos documentos oficiais temos:
Ano
Nome
Documento
Observação
1804
Denisard, Hypolite Leon Rivail
Certidão nascimento
(5) encarte entre as páginas 26 e 27.
1832
Hippolyte Léon Denizard Rivail
Certidão casamento
(5) encarte entre as páginas 50 e 51.
1869
Léon Hippolyte Denisart Rivail
Certidão óbito Kardec
(5) Em 01.04, encarte entre as páginas 58 e 59.
1869
Denisard Hippolyte Léon Rivail
Decisão judicial
(9) Em 01.05, Archives Nationales de France.
1883
Denisard, Hippolyte Léon Rivail
Certidão óbito Amélie Boudet
(5) encarte entre as páginas 70 e 71.
Então, aqui os termos “Denisard” e “Léon” não são mantidos na mesma ordem, sendo que o primeiro a variação dá-se na metade das ocorrências. Via de regra, dar-se-ia preferência ao que se utilizou na certidão de nascimento, caso na França seguisse, nesse particular, o que ocorre aqui no Brasil.
Mais à frente apresentaremos as imagens constante na obra, da qual foram tomados todas as ocorrências; porém, algo já nos chamou a atenção na certidão de nascimento: qual é a razão da vírgula depois de Denisard?
Novamente, apenas para registro, observe que na certidão de óbito de Kardec lê-se Denisart e não Denisard, ou seja, em lugar do “d”, apareceu-nos um “t”.
Vejamos agora como consta o nome de Kardec nos documentos não oficiais:
Ano
Nome
Documento
Observação
1804
Hippolyte Léon Denizard Rivail
Registro de batismo
Canuto Abreu citado em (7), p. 96.
1824
H. L. D. Rivail (assinatura)
Curso prático e teórico de Aritmética, segundo o método de Pestalozzi
do próprio Kardec, em (7), p. 97.
1828
H. L. D. Rivail (assinatura)
Plano proposto para a melhoria da Educação Pública
do próprio Kardec, em (3), p. 55.
1846
Hypolite Léon Denizard Rivail e H. L. D. Rivail (assinatura) e
Testamento datado de 24 de abril de 1846
do próprio Kardec, em (8), p. 264.
1847
H. L. D. Rivail (assinatura)
Projeto de reforma de exames e de educandários para moças
do próprio Kardec, em (3), p. 119.
1867
Hippolyte Léon Denizard Rivail
Nouveau Dictionnaire Universel
Maurice Lachâtre citado em (4), p. 303-308.
Nas três ocorrências, onde Kardec não assinou o nome todo, ele coloca as iniciais exatamente na ordem que utilizou em seu testamento, que, por sua vez, é quase idêntica à que consta do Novo Dicionário Universal, publicado por Maurice Lachâtre (1814-1900), a não ser pela troca do “y” pelo “i” e o uso de dois “pp”.
Vejamos como alguns autores das fontes, que foram por nós utilizadas, tratam dessa questão.
Jorge Damas Martins (1957- ) e Stenio Monteiro de Barros (1945- ) se limitaram a apresentar o nome conforme consta da certidão de nascimento, da qual apresentam um fac-símile, que mostraremos mais à frente.
Przemyslaw Grzybowski (1968- ) também menciona a diferença na ordem e opta por aquela utilizada por Kardec, justifica dizendo que foi ela que o Codificador assinou em suas obras.
Zêus Wantuil (1924-2011) e Francisco Thiesen (1927-1990), em nota explicativa sobre primeiro livro de Kardec – Cours Pratique e Theórique d'Arithmétique, d'apres la méthode de Pestalozzi, informam:
Tanto nesta quanto em todas as demais obras pedagógicas do mesmo autor, seu nome está sempre estampado abreviadamente, como se segue: H. L. D. Rivail, o que vem patentear, a olhos vistos, a maneira por que ele dispunha o seu nome, ou seja: Hippolyte Léon Denizard Rivail, fato para o qual o Dr. Canuto Abreu, ilustre espírita brasileiro, já chamava a atenção na revista “Metapsíquica” de 1936, p. 112, dizendo que Hippolyte aparecia ainda como prenome nos registros de batismo e de casamento, bem assim nos documentos públicos em que ele lançava o seu nome por extenso ou abreviado. (WANTUIL e THIESEN, vol. I, 2004, p. 96)
E mais à frente, no capítulo “Kardec e o seu nome civil”, Wantuil e Thiessen apresentam várias considerações pelas quais justificam optar por Hippolyte Léon Denizard Rivail, que será bem interessante ao presente estudo, porquanto elenca a lista, objeto de sua consulta, razão pela qual transcrevemos o seguinte trecho:
[…] importa fazer algumas observações preliminares:
a) Tanto a certidão de nascimento (sic) quanto o registro de batismo do futuro Allan Kardec inscrevem Denizard (124) e cremos que também assim o faz o contrato de casamento (125).
b) Por ocasião do passamento de Kardec, a "Revue Spirite" de 1869 publicou a páginas 130 um artigo da Redação intitulado -"Biographie de M. Allan Kardec", Aí aparece escrito, em grifo – Léon-Hippolyte-Denizart Rivail.
Dois grandes discípulos de Kardec – Camilo Flammarion e Léon Denis – escreveram de maneira diferente o nome do mestre lionês.
O primeiro, no seu “Discours prononcé sur la tombe d'Allan Kardec”, brochura editorada em 1869, apôs, em nota, ao pé da pág. 7: “Léon-Hippolyte-Denisart-Rivail.
O segundo, no “Prefácio” da 4ª edição da obra de Henri Sausse citada na nota (1), escreveu este período, à p. 8: Remarquons que mon nom est enchâssé dans celui d'Allan Kardec qui s'appelait en réalité: Hippolyte, Léon, Denisard Rivail”.
c) A velha, mas sempre consultada obra de J.-M. Quérard – “La France Littéraire ou Dictionnaire Bibliographique (…)”, Paris, tomo VIII (1836), p. 58, registou: “Rivail (H. L. D.)”; o tomo XII (1859-64), p. 450, escreveu: “RIVAIL (Hippolyte-Léon Deriízart)”.
d) o famoso “Dictionnaire Universel des Contemporains, contenant toutes les personnes notables de la France et des pays étrangers”. de G. Vapereau, Paris, regista em sua 3ª edição (1865), inteiramente refundida e consideravelmente aumentada, pp. 31/2, e na 4ª edição (1870), p. 30: “Allan-Kardec (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, dit)” …
O pseudônimo Allan-Kardec, conforme se lê no Prefácio datado de 1/12/1861, só entrou para o Dicionário de Vapereau a partir de sua 2ª edição, dada a público provavelmente entre 1861 e 1863.
A quinta edição desta obra (1880) não inscreveu o nome Allan Kardec, mas a sexta edição (1893) traz, no pé da p. 26, a mesma grafia que demos acima para o nome de Kardec.
e) O “Catalogue Général de la Librairie Française”, redigido por Otto Lorenz, Livreiro, escreve no tomo I, Paris, 1867, p. 27: “Allan Kardec, nom fantastique adopté par M. H.L.D. Rivail”; no tomo IV, Paris, 1871, p. 240: RIVAIL (Léon Hippolyte Denisart); no tomo V (tome premier du Catalogue de 1866-1875), Paris, 1876, p. 15: ALLAN KARDEC. Pseudonyme de H. L. D. Rivail.
f) “Les Supercheries Littéraires dévoilécs”, par J. M. Quérard, segunda edição, consideravelmente aumentada, publicada pelos Srs. Guslave Brunet e Pierre Jannet, seguida (…), assim regista no tomo I, primeira parte (1869), a pp. 266: “Allan Kardec (Hipp.-Léon Denizart RIVAIL), ancien chef d'institution, à Paris (…)”
g) O “Nouveau Dictionnaire Universel”, por Maurice Lachâtre, s. d.126, Paris, tomo primeiro, p. 199, regista: “Allan Kardec (Hippolyte-Leon-Denizard Rivail)”, fazendo a seguir longa biografia do Codificador.
h) O “Orand Dictiormaire Universel du XIXe Siecle”, por M. Pierre Larousse, Paris, tomo nono (1873), regista: “Kardec (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, plus connu sous le pseudonyme d'Allan)”…
i) Faz exatamente o mesmo o “Nouveau Larousse Illustré” (1897-1904), publicado sob a direção de Claude Augé, tom V.
j) O “Dictionnaire Biographique et Bibliographique”, por Alfredo Dantès, Paris, 1875, p. 26, escreve: “Allan Kardec (Hipp. Léon Denizard Rivail)…
k) O “Manuel Bibliographique des Sciences Psychiques ou Occultcs”, por Albert L. Caillet L C., Paris, 1912, regista:
Tomo I, p. 28: “RIVAIL (Hippolyte-Léon-Denizard)”…
Tomo II, p. 487: “Hippolyte Léon Denizard Rivail”…
Tomo III, p. 407: “RIVAIL (Hippolyte-Léon-Denizard) dit Allan Kardec”…
l) O “Dictionnaire de Biographie Française”, Paris, inclui no tomo segundo (Alíénor-Antlup), 1936. sob a direção de J. Balteau (Agrégé d'Htstoire), de M. Barroux (Archiviste paléographe, directeur honoraire des Architves de la Seine) e M. Prevost (Archiviste paléographe. conservateur adjoint à la Bibliotheque Nationale), com o concurso de numerosos e cultos colaboradores, inclui, como dissemos, na p. 98, o pseudônimo Allan Kardec, escrevendo-lhe assim o nome, de acordo com o registro de nascimento: “Denizard, Hippolyte, Léon Rivail”…
m) O “Nouveau Dictionnaire Encyclopédique Universel Illustré”, sob a direção de Jules Trousset (3º vol.), escreve: "KARDEC (Hippolyle-Léon-Denizard RIVAIL)”…
n) “La Grande Encyclopédie”, por uma "Société de Savants et de Gens de Lettres" (1885-1902), escreve no volume 28: “RIVAIL. (Hippolyte-Léon-Denizard)”…
o) O tomo II (1900), coluna 319, do "Cataloque Général des livres imprimés de la Bibliothèque Nationale”, Paris, regista assim o nome de Allan Kardec: Hippolyte-Léon-Denizard Rivail. Nas colunas seguintes, o mesmo “Catálogo”, ao relacionar-lhe as obras pedagógicas, põe sempre: H.-L.-D. Rivail.
Apenas por essa amostra, incompleta, podem os leitores verificar haver uma quase unanimidade na maneira de se grafar a palavra principal em estudo.
_______
(124) Henri Sausse - “Biographie d'Allan Kardec” (Nouvelle Édition), 1910, p. 12; 4me édition (1927), pp. 18 e 19.
(125) idem, ibidem, p. 14; id. ib., p. 22.
(126) O Dicionário não traz a data de publicação, nem no primeiro nem no segundo e último tomo. Ramiz Galvão coloca-lhe o aparecimento em 1865-1870.
(WANTUIL e THIESEN, vol. I, 2004, p. 228-231, grifo nosso).
O escritor Jorge Rizzini (1924-2008), mantém-se firme na escolha do nome que consta da certidão de nascimento, alegando que é esse que vale, por originar de documento oficial. Além disso, ele tece as seguintes considerações sobre a pesquisa de Wantuil:
Quer Zeus Wantuil que o nome civil de Kardec seja “Hippolyte León Denizard Rivail”. Entre seus argumentos destaca o registro de batismo e o de casamento. O primeiro nada representa, afirmemos logo. A certidão de nascimento, sim, pois é expedida pelas autoridades do país. Ninguém pode provar a filiação e a autenticidade de seu nome senão através da certidão de nascimento; com ela é que se obtêm os demais documentos.
Resta a certidão de casamento, na qual, muito estranhamente, se apoia Zeus Wantuil – estranhamente, repetimos, porque ninguém, que no Brasil quer no estrangeiro, divulgou-a. Mas, é óbvio, Allan Kardec não poderia casar-se no civil sem antes apresentar sua certidão de nascimento; mesmo que se casasse na igreja teria que fazê-lo. Assim, na certidão de casamento de Kardec há de constar, também, seu verdadeiro nome: Denizard Hippolyte León Rivail. (RIZZINI, 1995, p. 11).
Jorge Rizzini restringiu demais a base de Zêus Wantuil, que, como vimos logo acima, é bem mais extensa do que aquela que nos quer fazer crer Rizzini, inclusive, nela se vê que a grande maioria das fontes citadas por Wantuil utiliza Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Quanto à certidão de casamento, que Rizzini alega que nela deve constar o nome da certidão de nascimento, que supõe que teria sido apresentada, parece-nos que se deu justamente o contrário, pois observa-se que, na certidão de casamento, consta exatamente a grafia não aceita por Rizzini; mas aquela defendida por Wantuil, ou seja, Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Oportuno, também, ressaltar que não é só Wantuil que cita a certidão de casamento, podemos encontrá-la em Jorge Damas e Stenio Monteiro, que, inclusive, apresentam um fac-símile dela (MARTINS e BARROS, 1999, encarte entre as páginas 50 e 51).
Na revista Reformador encontramos o texto “Allan Kardec e o seu Nome Civil” (p. 24-28) de autoria de Washington Luiz Nogueira Fernandes (?-), do qual transcreveremos e, conforme o caso, comentar alguns trechos:
Nossa visão destes assuntos sempre foi mais documental, e não literária.
Assim, de posse de cópias dos documentos civis e certidões, isto é, de Fontes Primárias de informação, tudo seria esclarecido, não importando debates linguísticos, ou o que consta em livros de terceiros, que já seriam Fontes Secundárias, portanto, de valor menor, no tocante a esse assunto. (FERNANDES, 2000, p. 24).
Concordamos plenamente com o autor, e reconhecemos a nossa dificuldade em não ter as fontes originais. Entretanto, a coisa não é tão tranquila assim, pois mesmo naqueles que dizem ter essas fontes, encontramos problemas como ver-se-á mais à frente ao apresentarmos fac-símile da certidão de nascimento de Kardec.
Com relação ao nome civil, positivamente, o que vale é o registro de nascimento, que justamente atribui nome e personalidade civil a alguém. O Código Napoleônico francês (1804) somente fez breves referências a esta matéria, sendo depois completada pelos textos das leis intermediárias e pela jurisprudência.
Se, por acaso, o nome no registro de nascimento fosse feito com algum erro linguístico, semântico, etc., o seu dono teria que carregar este nome até o fim da vida, em qualquer lugar do mundo, ressalvado o caso de alterá-lo.
Foi o Ato de Nascimento que atribuiu existência civil a Rivail, e através do qual ele recebeu um nome e identidade. Citações em dicionários, enciclopédias e catálogos referentes a este nome, ainda que publicados no decorrer da vida de Rivail, valeriam apenas como um registro cultural ou filológico, sem nenhum alcance para o registro civil. (FERNANDES, 2000, p. 25).
Está coberto de razão, porém, devemos conhecer melhor certos detalhes que podem mudar aquilo que julgamos ser correto. No caso da certidão de nascimento, inclusive, o próprio autor constata isso neste texto, após Denizard há uma vírgula, e esse pequeno sinal gráfico não poderia mudar tudo? Sobre esse detalhe, argumenta Washington Luiz, em sua conclusão:
Definitivamente, o verdadeiro nome, e o registro civil de Allan Kardec é:
Denisard Hypolite Léon Rivail; observamos que a vírgula após o prenome Denisard é um procedimento usado ainda hoje nas certidões de nascimento francesas, que colocam, aliás, vírgula após cada termo do nome; se ele nascesse hoje, seria registrado como Denisard, Hypolite, Léon, Rivail, aparecendo uma vírgula após cada termo; não podemos confundir isto com citações bibliográficas, que colocam primeiro o sobrenome e depois a vírgula (Ex: Kardec, Allan), porque são coisas totalmente diferentes. Portanto, para efeito de saber o nome correto de alguém, à vista de sua certidão de nascimento francesa, pode-se ignorar a vírgula em sua certidão; (FERNANDES, 2000, p. 27, grifo nosso).
Estaria tudo certo não fosse o que nos traz Júlio Abreu Filho (1893-1971), quanto à questão da vírgula:
Há entre os espíritas uma certa confusão quanto ao nome do Codificador, por falta de acomodação entre o sistema francês e o nosso de citar o nome das pessoas. Para uns o menino em questão era Léon, para outros Denizard e, ainda para um terceiro grupo, Hippolyte. É que, de um modo geral, nós ignoramos que:
I – na França é comum acrescentar-se ao prenome do menino o de um ou dois avós;
II – nas famílias nobres esse acréscimo se torna abusivo;
III – por vezes adiciona-se ao prenome do ascendente masculino o do padrinho;
IV – nos documentos oficiais é praxe escrever em primeiro lugar o nome da família e depois os prenomes.
Assim, no caso vertente, o prenome é Hippolyte; os prenomes adicionais, Léon e Denizard e o nome de família, Rivail. Comumente se escreve Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, enquanto que nos documentos oficiais escrever-se-ia Rivail Hippolyte-Léon-Denizard.
E, escrevendo certo, justo é se exija a pronúncia correta.
Perdoem-nos os espíritas a exigência: é que não compreendemos não se saiba grafar e, menos ainda, pronunciar nome tão respeitável e que nos é sobremaneira caro. Seria uma falta de respeito. (ABREU FILHO, 1995, p. 9-10, grifo nosso).
Nota-se que não são concordantes as opiniões de Washington Luiz e Júlio Abreu, quanto à questão da vírgula, embora, a deste último ter uma aparência de mais coerente, apesar de a forma proposta não ser exatamente a que consta da certidão de nascimento.
Um pouco atrás falamos da dificuldade dos que se lançam a pesquisar os fatos em ter em mãos as fontes originais, o que hoje já não se justifica, porquanto, com todos os recursos de informática disponíveis, esses documentos já deveriam estar disponibilizados em algum site de alguma das Instituições que dizem representar o Movimento Espírita.
Para se ter uma boa ideia, dessa dificuldade, vejamos, por exemplo, a certidão de nascimento de Kardec. Conseguimos três fac-símiles; dois nas obras que utilizamos e um na Internet ([1]), aqui estão:
Comparando-se as duas primeiras, vemos claramente que a fonte não pode ter sido a mesma, pois há diferença entre elas, especialmente, quanto à letra, que, embora seja muito semelhante não é a mesma. Fora a questão do local onde consta os selos. A segunda e a terceira, também, bem semelhantes não têm o nome de Kardec da mesma forma e disposição. Fato que você, caro leitor, poderá pessoalmente constatar. O problema é que todos são tidos como originais, o que nos fez lembrarmos da frase atribuída a S. Jerônimo: “A verdade não pode existir em coisas que divergem”.
Certamente, que nem temos condições técnicas para apontar qual é a ordem correta; porém, mesmo assim arriscaríamos em dizer que, em princípio, seria a ordem utilizada pelo próprio Kardec no seu testamento, por razões, bem simples, não acreditamos que escrevesse seu nome errado, porquanto, portador de uma considerável cultura, isso, segundo pensamos, o impediria de utilizar uma ordem diferente da real, porém… Ah!, sempre aparece um porém, o que apresentaremos a seguir demostrará, exatamente, o contrário.
No apagar das luzes do ano de 2017, encontramos algo importante relacionado ao assunto, pois ele vem, inapelavelmente, definir qual o verdadeiro nome civil de Kardec que devemos utilizar.
Simoni Privato Goidanich (1969- ), escritora e oradora espírita, publicou a obra El legado de Allan Kardec, em espanhol, que informa ter sido resultado de pesquisa na Biblioteca Nacional da França, nos Arquivos Nacionais da França, na Confederação Espiritista Argentina e na Associação Espiritista Constância, de Buenos Aires.
Em 3 de outubro, Simoni Privato realizou a apresentação do livro na Confederação Espiritista da Argentina, cujo vídeo se encontra disponível no site do YouTube (9). A partir dos 39’’, ela aborda a questão do nome civil de Kardec, informando que a divergência na forma de escrevê-lo, resultou num processo judicial, no qual, após batida do malhete, definiu-se como: Denisard Hippolyte Léon Rivail. Isso pode ser muito bem ser confirmado nesta imagem apresentada pela Simoni Privato (9) na sua palestra:
Observamos que essa forma de escrever seu nome civil é bem próxima da que consta da Certidão de Nascimento, mas que ainda permaneceu a divergência no segundo nome, que aqui é grafado “Hippolyte” e na certidão como “Hypolite”, portanto, estavam “quase” certos todos os confrades que citamos que defendiam ser esse o documento que deveria decidir a questão.
E, para finalizar, gostaríamos de agradecer aos amigos que nos indicaram essa obra. Parece-nos que será, oportunamente, publicada em português.
Nosso objetivo ao tratar do tema não foi o de contestar ninguém que já tenha escrito algo sobre esse assunto, estamos apenas juntando o resultado de várias pesquisas realizadas, para que o leitor, ávido de conhecimento, possa tê-las reunidas num só lugar.


Paulo da Silva Neto Sobrinho
Mar/2012.
(revisado dez/2017)



Referência bibliográfica:
(1) ABREU FILHO, J. O principiante espírita. São Paulo: Pensamento, 1995.
(2) FERNANDES, W. L. N. Allan Kardec e o seu nome civil. in. Reformador, ano 118, nº 2052. Rio de Janeiro: FEB, março 2000, p. 24-28.
(3) INCONTRI, D. e GRZYBOWSKI, P. (org) Kardec Educador. Bragança Paulista, SP: Ed. Comenius, 2005.
(4) LACHÂTRE, M. Allan Kardec in. COSTA NUNES, B. H et al. Em torno do Rivail. Bragança Paulista, SP: Lachâtre, 2004.
(5) MARTINS, J. D. e BARROS, S. M. Allan Kardec: análise de documentos biográficos. São Paulo: Lachâtre, 1999.
(6) RIZZINI, J. Kardec, irmãs Fox e outros. Capivari, SP: EME, 1995.
(7) WANTUIL, Z. e THIESEN, F. Allan Kardec: o educador e o codificador, vol. I. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
(8) WANTUIL, Z. e THIESEN, F. Allan Kardec: o educador e o codificador, vol. II. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
(9) GOIDANICH, S. P. El legado de Allan Kardec – presentación en la Confederación Espiritista Argentina, https://www.youtube.com/watch?v=SddznxO66zE&t=823s. Acesso em 20 dez. 2017.

Este texto foi publicado, numa versão anterior:
Revista Espírita Histórica e Filosófica nº 28. Porto Alegre: Maria Carolina Gurgacz, set/2012, p. 4-15.



[1]   http://forcadaluz.pro.br/receitas/alan_kardec.html, artigo intitulado Allan Kardec assinado por T. L. Castro. (em 23 ago. 2017, não encontrado no link, porém aqui o encontramos: http://www.autoresespiritasclassicos.com/Allan%20Kardec/1/Documentos%20Hist%C3%B3ricos%20de%20Kardec/Certid%C3%A3o%20de%20nascimento%20de%20Hippolyte%20L%C3%A9on%20Denizard%20Rivail%20(Allan%20Kardec).jpg